segunda-feira, 28 de março de 2016

Merthiolate, Mercúrio e Band-Aid: as marcas mais lembradas pelas crianças dos anos 80

Outro dia, no meio das brincadeiras das minhas três gatinhas correndo pela sala, acabei sendo levemente atingida pelas unhas afiadas da Babuskinha. Mas não se preocupe, sobrevivi! Até porque logo após o acidente eu usei spray de Merthiolate, então ficou tudo bem!

O Merthiolate é meu conhecido desde minha época de criança, já que eu me acidentava com uma certa frequência e, portanto, tinha que usá-lo muitas vezes. Mas esse mesmo produto tinha uma grande diferença naquela época: Ele ardia. E muito.

Ardia tanto que a dor que sentíamos ao usá-lo era pior do que a que havíamos sentido no momento do acidente. Além disso, a tampa do frasco era acoplada a uma pequena haste com uma redinha retangular na ponta, que servia pra aplicar o produto diretamente nas regiões atingidas. Ver aquela redinha molhada com aquele líquido de cor vermelho-alaranjada, pingando, indo em direção ao joelho ralado era o pior pesadelo das crianças. Nossa salvação era quando havia o tal do Mercúrio no armário de remédios, pois este servia para o mesmo propósito que o Merthiolate, mas com uma grande diferença: não ardia. O problema era que às vezes o Mercúrio havia acabado (sim, muitos acidentes, muito uso), e no estoque de casa só restava o frasco de Merthiolate (impressionante como esse nunca faltava!).

No ápice da minha rebeldia infantil, decidi que não usaria mais o Mertiolate. Sofreria as consequências por não usá-lo, mas não permitiria que aquela redinha medonha se aproximasse dos meus machucados e arranhões. Foi então que eu ralei o joelho (ralei feio) e só aceitei usar Band-aid, sem Merthiolate, já que não tínhamos Mercúrio naquela ocasião. Dias depois, estava formada a famosa casquinha. Passei dias, semanas, repetindo o ciclo: Tira a casquinha, magoa a ferida, sangra de novo, espera formar nova casquinha. Tira casquinha etc. Mas não aceitei usar o Merthiolate e estava feliz por isso.

Esse ciclo se repetiu tantas vezes que, depois que a ferida finalmente sarou, até os pelinhos pararam de nascer na área atingida. Devem ter levado anos para voltar a crescer na área onde a casquinha apareceu e desapareceu sistematicamente.

Como o Merthiolate atual não arde, sempre o tenho por perto e faço uso quando necessário. Sem redinha e sem pesadelos!

terça-feira, 22 de março de 2016

Delícia de amizade

Outro dia marquei com uma amiga para nos encontrarmos, lanchar e bater um papo. Dia, horário e local fechados, eis que a amiga "farrapa" e nosso encontro é cancelado poucas horas antes do combinado. Reorganizei minha agenda e segui com a vida. Fazer o quê, né?

No dia seguinte, a fim de redimir-se, a amiga entrou em contato e me convidou para tomar um chá no fim da tarde daquele mesmo dia. Na realidade, um chai latte acompanhado de pão de batata, doce de leite e ricota. Mas não um chai latte qualquer, tampouco quaisquer pão, doce de leite e ricota!

Um chai latte especial, em cápsula, preparado em cafeteira de alta tecnologia. Um pão de batata recém saído do forno de uma padaria tradicional, uma das melhores da cidade. Doce de leite cremoso, de sabor suave, não enjoativo, produzido na fazenda de um amigo em comum. E ricota produzida na mesma fazenda, levemente temperada, com sabor que derretia na boca...

Enfim, esbaldei-me a degustar esse lanche-banquete-especialíssimo! Cada colherada de doce de leite, cada garfada de ricota, cada mastigada no pão de batata foi lentamente processada pelas minhas papilas gustativas que, por sua vez, enviaram repetidas mensagens ao cérebro de felicidade, paz, satisfação e prazer gastronômico!

Finalizado o lanche, a amiga perguntou:

- E então? Acho que eu estou perdoada, né?

Respondi, irônica:

- Claro que não! Hoje eu experimentei apenas uma amostra! Terei que provar várias outras vezes para poder avaliar adequadamente a qualidade desses produtos e aí, talvez, perdoar-lhe!

A amiga compreendeu perfeitamente a gozação e a finalidade da ironia... Que pena! Queria que ela tivesse levado a sério...

sábado, 12 de março de 2016

O marido distraído

- Thau, amor! - disse Tiago, dando um selinho em Sônia, que correspondeu com um largo sorriso e continuou seus afazeres domésticos.

Sônia e Tiago haviam se casado havia poucas semanas, mas a rotina de ambos já estava adaptada ao novo status civil do casal. Haviam decidido que, inicialmente, apenas Tiago trabalharia fora, enquanto caberia a Sônia realizar os cuidados com a casa.

Naquele mesmo dia, ainda no período da manhã, Sônia estava separando as roupas sujas para iniciar a lavagem. Como de praxe, primeiro verificava todos bolsos para evitar que algum material caísse no sistema de lavagem da máquina. E eis que naquele dia ela encontrou, no bolso de Tiago, um pequeno papel bem dobrado. Gelou... Desdobrando, seu coração pulou para a boca quando leu o que estava escrito...

Em caneta cor-de-rosa, com letra cursiva de característica bastante feminina, estava escrito um nome, que só poderia ser um nome de mulher! "Quem é essa mulher? E por que ela deu esse papel com o nome dela para meu marido?" - pensou Sônia, entre várias outras perguntas, enquanto caía num emaranhado de medo, raiva e ciúmes.

Sônia não trabalhou mais naquele dia. Deixou o montinho de roupas para lavar jogado no chão, ao lado da máquina. Não preparou almoço, não comeu nada além do café-da-manhã e ficou transitando da cama pro sofá durante o resto do dia, ora chorando, ora imaginando mil e uma coisas que não queria que fossem verdade...

No fim da tarde, quando Tiago retornou, encontrou Sônia deitada no sofá, já cansada de tanto chorar por todo aquele dia... Assustado, perguntou:

- Que foi amor? O que aconteceu?

Sônia então lhe mostrou o papel e pediu explicações.

- Amor, juro que não sei, não lembro! Olha, deve ter sido o pessoal do trabalho, uma brincadeira... - carinhosamente confortou e tranquilizou Sônia - Vamos fazer o seguinte, amanhã eu pergunto quem fez isso e reclamo, pois foi uma brincadeira de muito mal gosto!

No dia seguinte, ao chegar ao trabalho, Tiago mostrou o papel aos colegas e perguntou:

- Gente, quem fez isso aqui? Vocês sabem que eu sou recém casado, minha mulher não gostou da brincadeira... e nem eu!

Todos os colegas negaram conhecimento daquele papel. Mas a solução do mistério veio com a observação de Paula, uma de suas colegas do trabalho:

- Tiago, você é muito esquecido mesmo, hein?

- Como assim? Você sabe o que é isso? - disse Tiago.

- Claro que eu sei, Tiago. Fui eu que escrevi esse papel e te dei. Lembra que dois dias atrás você estava bastante resfriado?

- Lembro! Mas e esse papel?

- Pois bem, lembra que eu comentei com você sobre seu resfriado e anotei nesse papel o nome do remédio que eu costumo tomar quando estou com os mesmos sintomas que você teve... Inclusive você comprou o remédio, tomou e melhorou, não foi?

Agora tudo estava esclarecido para Tiago. Paula estava certa: tudo isso aconteceu havia dois dias e ele, esquecido como sempre, havia apagado da memória o nome daquele medicamento.

A fim do dia, chegando em casa, mostrou o papel e a caixa do medicamento para Sônia, que abriu um grande sorriso ao decifrar toda aquela situação!

terça-feira, 8 de março de 2016

Meu filho quer cerveja...

- Mamãe, posso tomar cerveja? - disse Marquinhos, 5 anos, à sua mãe.

- Claro que não, meu filho! Cerveja é coisa de adulto, mas você ainda é criança!

Não era a primeira vez que Marquinhos fazia esse pedido à mãe. Em todas as reuniões de família e encontros de amigos dos pais de Marquinhos, em meio aos comes e bebes comuns, havia sempre a tão apreciada cervejinha para os adultos. Marquinhos observava o quão os adultos e, particularmente, seu pai apreciavam aquela bebida "de adulto" e, a cada pedido negado para prová-la, sua curiosidade só aumentava.

A mãe de Marquinhos, cautelosa, observava esse comportamento e sua preocupação crescia... E se a curiosidade crescesse a ponto de Marquinhos provar uma bebida alcóolica às escondidas, ainda criança? O resultado disso poderia ser trágico... Ela sabia que estava em suas mãos tomar uma medida para eliminar esse problema definitivamente. Só não sabia ainda como.

Até que, numa reunião de família, ela teve uma ideia... Aguardou que Marquinhos repetisse a pergunta e pôs em prática seu plano:

- Mãe, quero cerveja!

Marquinhos deve ter imaginado que sua mãe lhe responderia da mesma forma de sempre, mas dessa vez ele teve uma surpresa:

- Marquinhos! - respondeu sua mãe com olhos esbugalhados e tom de voz castigador - Venha aqui agora! Você vai ter que tomar cerveja agora mesmo!

Marquinhos se assustou e seu coraçãozinho nunca havia batido tão forte como naquele dia. Enquanto mantinha Marquinhos nessa situação de medo, sua mãe pegou um copo descartável, colocou  dois dedos de refrigerante e, cuidadosamente, colocou um pouco de espuma de cerveja por cima, o suficiente para formar um grande colarinho no copo.

- Venha aqui! Tome agora! - Ordenou, em voz alta!

Então ela segurou Marquinhos com firmeza e encostou o copo em seu rostinho, o suficiente apenas para que Marquinhos sentisse o cheiro da espuma que estava no copo. Ela sabia muito bem que o cheiro da cerveja seria suficiente para Marquinhos se desagradar da ideia de bebê-la. Marquinhos berrou, debateu-se e quis afastar-se dela e do copo. Sua mãe então o soltou e deixou que ele corresse para longe da mesa de bebidas, exatamente como ela havia imaginado.

Depois desse "trauma calculado", Marquinhos passou toda a infância e adolescência sem qualquer interesse por bebida alcoolica. E esse desinteresse duraria toda a sua vida, exatamente como sua mãe havia imaginado!

sexta-feira, 4 de março de 2016

O voo de Mariana

Sempre disseram que Mariana tinha um temperamento forte, habilidade com as palavras e poder de argumentação e convencimento. Nada mais justo! Ao longo de sua infância e adolescência, Mariana desenvolveu essas habilidades de tal forma que, ao ingressar na Faculdade de Direito, sentiu-se em casa. A cada semestre, Mariana acumulou novos conhecimentos e experiências de tal modo que, concluída a graduação, era uma profissional altamente competente.

O único problema de Mariana era sua ilusão de invencibilidade. Acreditava ser imune a erros, supervalorizava seu nível de conhecimento e inflava seu ego a cada nova batalha judicial vencida. Suas relações familiares e de amizades foram bastante afetadas por seu comportamento presunçoso, mas, ainda assim, metade das pessoas que a conheciam a amavam. A outra metade preferiu distanciar-se dela o máximo que pôde.

Houve então uma ocasião em que a realidade deu uma dura lição para Mariana. Havia aproveitado um fim de semana de festas e baladas, mesmo havendo uma viagem marcada para o início da semana. Deixou para aprontar as malas poucas horas antes do horário estabelecido para o embarque. Além disso, acordou mais tarde do que deveria naquele dia do voo.

Entrou no táxi com sua bagagem quando já faltavam menos de quarenta minutos para a decolagem. Se o aeroporto estivesse a menos de dez minutos de sua casa, Mariana poderia chegar com trinta minutos da decolagem e haveria uma chance de conseguir embarcar. Mas o aeroporto de sua cidade ficava distante de sua casa e o trajeto não demoraria menos de 30 minutos, mesmo seguindo o taxista numa velocidade acelerada.

Resultado: Mariana chegou à mesa do guichê do aeroporto para despachar a bagagem dez minutos antes do horário estabelecido para a decolagem. A funcionária da empresa aérea que a atendeu informou que, infelizmente, o procedimento de embarque já havia sido encerrado e, portanto, Mariana não poderia despachar a bagagem, nem embarcar.

Mariana tentou usar todo seu poder de argumentação e convencimento, mas foi em vão. Pelas normas da empresa aérea, impressas no cartão de embarque de Mariana, o passageiro deveria fazer o checkin, despachar a bagagem e estar presente no portão de embarque a antecedência necessária.

Mariana tomou outro táxi e retornou para casa, chorando. Chegando em casa, teve que comprar outra passagem de ida, mas só havia voos disponíveis para o dia seguinte. E pelo triplo do preço de sua passagem original.