domingo, 28 de fevereiro de 2016

Talita e o brigadeiro

As crianças brincavam e corriam de um lado para o outro, enquanto os adultos conversavam, sentados às mesas, e comiam os canapés e docinhos servidos ao som das músicas da Xuxa. Para todas as crianças ali presentes, era a festinha de aniversário da Carol, então empolgadíssima com a comemoração de seus sete aninhos de vida. Mas para Talita, cinco anos, a situação era um pouco incômoda.

Enquanto o momento era de brincadeiras, Talita se divertia à vontade. O tempo passava e seu objetivo era apenas um: brincar o máximo possível. Essa era a estratégia para manter-se longe do bolo, dos doces e das pessoas que insistiam em oferecer-lhe refrigerantes e qualquer prato de sabor doce.

Não, Talita não sofria de diabetes e não tinha nenhum impedimento orgânico para consumo de açúcar. Ela apenas não gostava do sabor e não consumia nenhum alimento doce, independentemente de ser uma fruta ou uma fatia de bolo de chocolate.

O que incomodava Talita naquela festinha era o fato de parecer ser a única criança que não se interessava por pirulitos e brigadeiros. Enquanto suas amiguinhas se dirigiam à mesa de doces e atacavam todos os brigadeiros, beijinhos de côco, surpresas de uva e docinhos finos, embalados em plástico colorido, Talita seguia tímida para a mesa de salgados e procurava saber qual era o recheio da empada a fim de certificar-se que não havia sinal de doce naquele salgado. Provava apenas um pedacinho e acabava desistindo quando sentia uma pontinha de doce na massa da empada.

Mas, naquela noite, Talita sentia-se especialmente incomodada com as perguntas das amiguinhas e tias curiosas demais.
- Você não quer brigadeiro?
- Mas como assim você não gosta de pirulito?
- Nem uma balinha você quer?
- Olha, Mãe! É aquela menina que eu falei! Ela não come doce!
- Ela não come nem pãozinho de queijo porque acha o sabor doce!

Os olhares, comentários e perguntas se repetiam a todo instante e Talita sentia-se cada vez mais constrangida. Parou pra pensar se não era exagero dela, se o sabor doce era algo tão insuportável a ponto de compensar toda aquela sensação de ser a "criança diferente". "Será que eu sou tão diferente assim?" - pensou Talita naquela noite.

Tentou lembrar da última vez que havia tentado comer algo doce: Fazia tanto tempo que nem se lembrava. Foi então que tomou uma decisão: "vou provar um pedacinho de doce, só pra ver se não é exagero meu... Quem sabe eu até goste, né? Afinal, todo mundo gosta..."

Talita então aproximou-se cuidadosamente da mesa de doces e, discretamente, tirou um brigadeiro. Afastou-se da música, das mesas de comidas e das outras crianças: não queria chamar a atenção sobre estar provando um doce naquele momento. Olhou para o brigadeiro e teve uma sensação de que aquilo não iria dar certo, mesmo sendo apenas uma menina de cinco anos de idade. Por via das dúvidas, aproximou-se da porta do banheiro... Vai que, né?

Olhinhos fechados, chegou a hora da verdade. Seus dentinhos apenas beliscaram um pedacinho da massa e dois ou três granulados da cobertura. A única coisa que Talita se lembra depois daquele momento foi de ser amparada pela mãe, no banheiro, numa crise de vômito que durou até o dia seguinte. Depois daquela ocasião, Talita não teve mais dúvidas quanto ao seu paladar restrito. E nunca mais voltou a sentir-se constrangida por rejeitar os doces que lhe foram oferecidos.