sábado, 31 de outubro de 2015

Michael J Fox e a Princesa Diana

O ano era 1989 e estava tudo pronto para a solenidade de estreia de "De volta para o Futuro II". O sucesso de bilheteria do primeiro filme tornou possível a produção desse segundo filme, onde os protagonistas fazem uma viagem de trinta anos  para o futuro, com uma série de efeitos especiais da mais alta tecnologia na época. Os trailers previamente exibidos nas salas de cinema deixaram os espectadores especialmente entusiasmados com as cenas do tubarão virtual e dos pequenos relances do cenário imaginado para o ano de 2015. Numa época em que praticamente não existia internet nem pirataria, o mundo inteiro aguardava a estreia daquele filme, que tinha tudo para repetir ou mesmo superar o sucesso do primeiro.

Para Michael J Fox e os demais atores, diretores e produtores, aquela noite reservava uma honraria adicional: entre os convidados especiais para a cerimônia de estreia estariam os membros da Família Real da Inglaterra nas pessoas da Princesa Diana e do Príncipe Charles. Como a presença e participação da Realeza num evento como esses exige uma série de protocolos especiais, primeiramente os atores e demais personalidades receberam as orientações da equipe de apoio sobre as normas de conduta e comportamento na presença da Família Real.

"Não é permitido se dirigir diretamente a um membro da Família Real, a não ser que esse membro se dirija primeiramente a você; Não é permitido virar as costas para nenhum membro da Família Real". Michael ouviu atentamente a todas as normas de conduta e estava determinado a segui-las corretamente. Naquele momento de sua vida profissional, não estava disposto a pôr tudo o que havia sido conquistado com tanto trabalho e sacrifício à toa, por cometer uma gafe com a Família Real num evento tão importante como aquela estreia.

No hall da sala de cinema, os atores e produtores aguardavam a chegada da Família Real enquanto ouviam, pela última vez, as normas de conduta sendo repetidas novamente pela equipe de apoio. A Realeza então entrou no hall e tanto o Príncipe Charles como a Princesa Diana se dirigiram aos atores e produtores e os cumprimentaram individualmente. Michael sentiu-se momentaneamente aliviado por conseguir vencer aquela prova de etiqueta impecavelmente e, junto com o grupo, partiu para a sala onde o filme finalmente seria exibido.

Michael tomou seu assento e ficou aguardando o início do filme. Olhou para o lado direito e, percebendo que o assento estava vazio, por um instante parou para imaginar quem poderia sentar-se ao seu lado. Poucos instantes depois, eis que se senta naquele assento ninguém menos que a Princesa Diana. Inicialmente, Michael sentiu-se feliz com tamanha honra e, em alguns momentos, ficou tentado a simular um bocejo falso para esticar o braço e abraçá-la... Mas essa tentação ficou resumida a seus pensamentos. Porém, minutos após as luzes se apagarem para o início do filme, algo aconteceu que o preocupou bastante.

Sentiu necessidade de levantar-se para ir ao banheiro. Isso não seria um problema caso a Realeza não estivesse ao seu lado. Mas, tendo em vista tantas normas de comportamento e conduta a seguir, viu-se em apuros: Não poderia dirigir-se diretamente à Princesa e pedir licença para passar por sua frente para ir ao banheiro, pois a Princesa estava distraída assistindo ao filme e não havia lhe dirigido a palavra. Tampouco poderia seguir pelo outro lado, pois não poderia virar as costas para ela, a não ser que seguisse no estilo "moon walk", o que poderia causar ainda mais transtornos para alguém que não queria pôr tudo a perder.

Estando aprisionado por todos os lados, tomou a decisão mais dolorosa, porém mais segura: permaneceu sentado durante todo o filme. Sentiu fortes dores físicas por ter que prender sua necessidade fisiológica. Mas, terminado o filme, o evento de estreia e, claro, depois de finalmente ser possível seguir para o banheiro sem cometer uma gafe com a Família Real e aliviar sua tensão e suas dores, Michael pôde sair do evento com a sensação de missão cumprida. Uma missão que se tornou dolorosa, mas foi cumprida sem gafes.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O episódio do vestidinho

A família de Lívia sempre foi bastante conservadora. Sendo a única mulher e a filha mais nova de quatro irmãos, era tratada como a "princesinha" da casa enquanto criança. Mais tarde, à medida que seu corpo foi ganhando forma e proporções menos infantis e mais adultas, foi cercada de cuidados, proteção e avisos de seus irmãos e pai. Como estamos falando de uma época relativamente antiga, eram costumes que não causavam estranheza.

Cercada sempre por tantas orientações e precauções de seus parentes, ao ingressar na Faculdade Lívia manteve seu foco estritamente nos estudos e, mais tarde, nos estágios e trabalhos. Porém, eventualmente recebia olhares de um ou outro rapaz, seguidos de convites singelos para ir ao cinema ou fazer um passeio para tomar um sorvete. Todos os pedidos eram negados sistematicamente e Lívia se dirigia para casa imediatamente após o fim de cada aula ou expediente.

Alexandre, um de seus colegas de classe, observava essa movimentação e permanecia e silêncio. Interessado em aproximar-se um pouco mais de Lívia, percebeu que uma abordagem convencional não surtiria efeito e, portanto, teria que usar uma estratégia diferenciada. Passaram-se semanas, meses, até que chegou o momento que ele sabia ser a oportunidade ideal. Bolou um plano e o pôs em prática, mesmo não tendo certeza do seu sucesso.

Num dos intervalos das aulas, Alexandre aproximou-se da banca onde Lívia estava sentada e disse -lhe que precisaria de uma ajuda "feminina" para resolver um pequeno problema. Lívia então ouviu atentamente Alexandre contar-lhe que sua mais nova sobrinha iria completar seu primeiro ano de vida e que ele gostaria de presenteá-la com um vestidinho, mas teria dificuldade para escolhê-lo por não estar acostumado com esse tipo de coisa. Depois de explicar cuidadosamente a situação, perguntou a Lívia se ela poderia ajudá-lo.

- "Terei que pensar um pouco, mas amanhã eu lhe digo, pode ser?" - respondeu Lívia, que passou o resto do dia pensando sobre o assunto.

Mas o pensamento de Lívia não focou no tipo de vestidinho ou na loja poderia sugerir ao amigo. Ela pensou: "Puxa, como esse rapaz é preocupado e cuidadoso com a família! E pelo jeito ele realmente confia em mim, pois ele poderia pedir esse favor a qualquer outra pessoa, mas de certa forma ele me escolheu para ajudá-lo...". Com aquele pedido simples e incomum, sentiu-se valorizada e, ao mesmo tempo, admirada com as prováveis qualidades daquele rapaz.

No dia seguinte, Lívia respondeu a Alexandre que sim, iria ajudá-lo a escolher o vestidinho para sua pequena sobrinha. Depois desse episódio, nas semanas seguintes outros pequenos ganchos surgiram e facilitaram a continuidade da aproximação entre Lívia e Alexandre. O tempo passou e o que era uma amizade transformou-se num relacionamento, que persiste há mais de trinta anos desde o episódio do vestidinho.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Letícia e os desenhos animados

- Vamos ver um desenho, Letícia?

- Não!

Com a negativa de Letícia, de dois anos de idade, decidi repetir a pergunta de uma maneira mais específica:

- Vamos ver a Galinha Pintadinha?

- Eeeeeeh, Galinha Pintadinha!!! - disse Letícia em grande animação enquanto saía do quarto para a sala, onde rapidamente subiu, sentou-se no sofá de frente para a TV e ficou aguardando que a Tia ligasse o aparelho, onde ela havia deduzido que apareceria a Galinha Pintadinha.

- Não Letícia, vamos ver a Galinha Pintadinha no celular da Tia!

Sentei-me na poltrona-de-balanço da minha mãe (em outra postagem eu contarei sobre um ocorrido com esse móvel, aguarde!), coloquei a almofadinha branca de crochê na altura certa para apoiar a cabeça da Letícia, que se sentou no meu colo e ali ficou bem acomodada esperando a sessão de desenhos da Galinha Pintadinha que estava para começar a ser exibida no celular que eu segurava com a mão esquerda, apoiada no braço da poltrona-de-balanço.

Cliquei no ícone do Youtube, digitei "galinha pintadinha" no campo de pesquisa, apareceram vários vídeos disponíveis e Letícia já foi botando seu dedinho indicador direito para escolher o ícone do desenho que ela gostaria de ver naquele momento. Começou então a exibição do primeiro vídeo, com a música:

Borboletinha tá na cozinha.
Fazendo chocolate para a madrinha.
Poti, poti. Perna de pau.
Olho de vidro. E nariz de pica-pau
Pau-pau!

- Não! - mal acabou a primeira repetição da música, Letícia já pediu para mudar o vídeo. Então cliquei para retornar à tela das opções para ela selecionar com o seu dedinho sabido.

- Lobo mau! Lobo mau! - Ao identificar o vídeo dos "Três Porquinhos", Letícia clicou para assistir o personagem que lhe veio à lembrança.

Quando o vídeo começou, ela começou a uivar como o lobo mau: "Auuuuuuuh, auuuuuh!". E eu, uma Tia participativa que gosta de uma boa brincadeira, comecei a uivar junto com ela: "Auuuuuuuuh, auuuuuh!". Foi então que Letícia parou de uivar, inclinou sua cabecinha, desviando o olhar do celular para ver o que a Tia estava aprontando. Continuei os uivos: "Auuuuh, auuuuuuuuuuh! Auuuuuuuuuuuuuh!"

- Não, Tia! Só eu! - Letícia brecou a minha participação no jogo da imitação do Lobo Mau, pois preferia brincar sozinha.

- Sim, senhora! - respondi e calei-me.

Continuamos a ver os desenhos escolhidos por ela até que, minutos depois, minha irmã notou que Letícia já não estava mais a assistir o desenho da "Chapeuzinho Vermelho" que passava, pois já havia caído no sono.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

O "Tombão"

Artur trabalhava naquela pequena Fábrica como funcionário terceirizado fazia quase 2 anos, contratado, na realidade, por uma Empresa Multinacional. Sendo o único analista de TI do local, era considerado o "faz tudo" da fábrica. Algum problema para acessar o e-mail? Chama o Artur! O computador não quer ligar? O Artur deve saber como resolver isso. Faltou energia na cidade? Pergunta ao Artur quanto tempo vai demorar para voltar ao normal...

A rotina de trabalho de Artur era, portanto, bastante agitada, de modo que ele passava o dia apagando  os "incêndios" que surgiam nos vários setores da empresa. Sobe as escadas, desce as escadas, segue pelo corredor, vai até a área de produção, volta à sua sala. Novos problemas exigiam novas soluções, mas como a maior parte deles era reincidente, sentia que as coisas permaneciam razoavelmente sob controle.

Porém, naquelas idas e vindas sempre apressadas, os degraus das escadas se tornaram, aos poucos, suas velhas conhecidas. Aos poucos foi ganhando uma confiança crescente naquelas subidas e descidas e aumentando cada vez mais a velocidade para percorrer aqueles degraus, fosse subindo ou descendo. Até porque quanto menos tempo levasse para alcançar os locais onde estavam os problemas, mais rápido poderia solucioná-los.

Ocorre que chegou o dia em que suas pernas, tão confiantes com os degraus do caminho, pregaram-lhe uma peça sem o seu consentimento. A perna direita disputou corrida contra a perna esquerda que, para não ficar atrás, aceitou o desafio. Conseguida a ultrapassagem da perna esquerda sobre a direita, a corrida terminou com o desequilíbrio e, consequentemente, uma drástica queda de Artur, já próximo ao pavimento superior. Com a queda, Artur acabou rolando do topo até a base da escada e, no meio da confusão, foi premiado com hematomas e escoriações por todo o corpo, além de uma fratura no braço esquerdo.

Foi prontamente socorrido e encaminhado ao hospital mais próximo. Enquadrado como um acidente de trabalho, foi necessário efetuar todos os registros prescritos nas Normas Regulamentadoras de Segurança do Trabalho. Por fim, recebeu um atestado médico solicitando 15 dias de repouso das atividades laborais.

Para Artur, aqueles 15 dias foram longos e entediantes, já que estava tão habituado a estar sempre correndo para cima e para baixo, literalmente. Ao retornar ao trabalho, retomou a velha rotina de idas e vindas até os focos de "incêndio tecnológico". E, para a sua surpresa, ao se aproximar novamente da escadaria onde havia acontecido o acidente, observou que a Fábrica, como medida preventiva, não precisou reformar a escadaria nem fazer grandes alterações. Apenas foi afixado um cartaz com os seguintes dizeres, em letras cômicas:


"Ei, amigão!
Use o corrimão!
Porque senão 
Você pode levar um tombão!"

sábado, 17 de outubro de 2015

O carro branco do outro lado da rua

Júlio havia mudado de cidade para iniciar o curso universitário. Entre as idas e vindas com destino à biblioteca, às salas de aula e aos laboratórios, percebeu que aquela menina sempre seguia os mesmos trajetos que ele. E, por algum motivo, a presença dela chamava tanto a atenção dele que, por onde passava, estava sempre a procurando quando percorria os caminhos do Campus.

Tímido, não conhecendo ninguém na cidade e ainda não entrosado com os colegas de classe, com o passar dos dias e semanas Júlio havia visto a menina em várias ocasiões, mas continuava desconhecendo o nome dela e ainda não havia aparecido uma oportunidade conveniente o suficiente para que ele se dirigisse a ela para, pelo menos, trocar um "oi!".

Depois de algumas semanas, foi convidado a participar de uma pequena confraternização dos colegas de classe. Ao chegar no local, seu coração disparou ao ver que a menina, que era uma das amigas das colegas da faculdade, também estava presente. Foram finalmente apresentados e começaram a conversar. Agora já sabia o nome da menina: Gabriela!

Naquela noite, conversaram bastante sobre temas variados. Descobriram alguns pontos em comum e o papo foi tão agradável que nem perceberam o quanto havia passado o tempo e que a festa já estava no fim. Educadamente, ofereceu carona a ela e suas amigas, já que estava de carro. Contrariando sua torcida, ela seria uma das primeiras a serem deixadas em casa, considerando a rota que ele faria e os destinos das outras moças.

Ela morava num conjunto residencial popular. Parecia um grande labirinto de casas iguais, ruas extensas e  quadras que se diferenciavam apenas pela numeração. Mas, entretido com as conversas no carro, acabou prestando atenção num único ponto de referência da casa de Gabriela: um carro branco estacionado no lado oposto da rua. Despediram-se com dois beijinhos no rosto. Ela entrou em casa e Júlio seguiu seu itinerário de "entregas" até chegar em casa.

A semana passou e ele só pensava em voltar a ver Gabriela pelo Campus, como de costume. Mas passou segunda, terça, quarta e nada. Chegou a quinta-feira e nada. Na sexta, a mesma coisa: nada de Gabriela. Ao chegar o sábado, decidiu telefonar. Naquela época, o telefone fixo era a única opção para se entrar em contato com alguém. Conversaram, conversaram e conversaram por telefone. Marcaram então para ir ao cinema.

No horário combinado, Júlio estava dirigindo pelo conjunto habitacional onde morava Gabriela. Não foi difícil refazer o caminho até a quadra e a rua da casa dela. O problema foi encontrar a casa. Cadê o carro branco que estava parado no lado oposto da rua? Esse havia sido o único ponto de referência que ele lembrava. E, numa época em que não havia celular e smartphone, não havia a possibilidade de telefonar para tirar a dúvida quando já se estava dirigindo.

Sentiu certo desespero. Seguiu com o carro pela rua, indo e voltando, numa tentativa desesperada de tentar lembrar qual era a casa dela. Mas todas as casas eram iguais, exceto pelo número, que ele não havia anotado e nem lembrava qual era. Continuou seguindo, sem rumo certo, tentando dar uma chance à sorte.

Por acaso, a menina apareceu na porta de casa no momento em que ele estava passando por perto. Estacionou rapidamente, como se soubesse que aquela era a casa. Desceu do carro para cumprimentá-la e, antes de voltarem ao carro, daquela vez ele teve o cuidado de observar e gravar mentalmente o número da casa. Não precisou anotar. Aquele número ficou tão gravado em sua memória como ficou o episódio. Daquele dia em diante, passou a ter mais atenção para memorizar pontos de referência fixos de todos os lugares para onde teve que ir.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Quer ir ao banco com a Mamãe?

- Quer ir ao banco com a Mamãe? - Andrea perguntou à filha Júlia, de apenas 3 anos de idade. Claro que foi uma pergunta retórica, já que para Julinha não haveria opção que não fosse acompanhar a mãe em sua ida ao banco, pois Andrea não teria com quem deixar a menina naquele momento.

A jovem Julinha, no auge dos seus 3 anos de idade, ouviu aquela pergunta que logo se multiplicou em várias outras perguntas em seu imaginário. "O que é um banco? Os bancos que eu conheço são móveis para as pessoas se sentarem. E por que Mamãe me perguntou se eu quero ir? Eu deveria querer ir também? O que será que acontece lá para  a mamãe ter que ir e, mais do que isso, o que será que tem pra mim lá?"

- É o lugar para onde as pessoas vão quando querem sacar dinheiro e pagar contas! - respondeu Andrea pacientemente, já acostumada com a infinidade de perguntas da Julinha.

Humm, estou começando a entender... Deve ser um lugar muito, muito grande, onde cabem muitas pessoas e também o montão de dinheiro que elas vão lá pra buscar! Imaginou um grande prédio em formato de "banco de sentar", com um portão enorme por onde as pessoas entravam e saíam carregadas de sacolas enormes, sinalizadas com o símbolo do cifrão que ela aprendera nos desenhos animados. Ficou curiosa e concluiu ser interessante a ideia de ir ao banco, pois assim poderia descobrir como é um. Durante todo o caminho, ficou imaginando várias versões possíveis para a aparência do "prédio em forma de banco de sentar", todas baseadas nos tipos de banco que ela já havia visto em casa, na escola ou nas praças por onde já havia passado.

Chegando ao banco, Julinha não se impressionou com o formato convencional do prédio. Nem com a fila das pessoas para atendimento, ou o barulho dos teclados, impressoras matriciais e burburinho de conversas e passos em salto alto. Por um instante, ficou decepcionada. "Na próxima vez que a Mamãe perguntar se eu quero ir ao banco com ela, vou responder que não, agora que eu já sei como é!" - Pensou Julinha.

Depois de enfrentar a enorme e entediante fila com a mãe, observou algo que a deixou bastante surpresa: A funcionária que atendeu a mãe. Como era bem vestida, bem penteada e maquiada! Que lindos brincos e anéis, e que unhas bem pintadas! Ficou encantada com a boa apresentação da moça e com o quanto ela parecia rápida e eficiente para digitar naquele teclado e atender a todos aqueles pedidos difíceis que sua mãe fez. Como ela sabe o que é um extrato? O que é um extrato? E como ela fez para sair tão rapidamente naquele pedaço de papel tudo o que a Mamãe pediu? - Julinha continuava divagando em seus pensamentos.

Terminado o atendimento, Andrea e Julinha deixaram o banco. Para Andrea, aquela ida ao banco havia sido apenas um evento rotineiro, ao qual estava bem acostumada.  Mas, para Julinha, foi uma ocasião tão significativa que ela voltaria a lembrar-se dela por toda a sua vida. Embora ainda muito pequena e não compreendendo ao certo o que havia acontecido, mesmo sem saber o que era uma decisão, Julinha tomou uma das primeiras decisões em sua vida: a de que, quando crescesse, iria trabalhar num banco e seria tão bem arrumada e eficiente quanto aquela moça que vira! Ah, e que sempre aceitaria futuros convites para acompanhar qualquer pessoa ao banco!

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Mergulhando no Riacho do Salgadinho

Houve um tempo em que bater nos filhos era o principal método de "educação" doméstica. Não comeu toda a comida do prato na hora do almoço? Lapada! Não fez a lição da Escola? Vai apanhar de cinturão e ficar ajoelhado no milho! Fez birra fora de casa? Vai levar beliscões e, chegando em casa, apanhar! Naquela época, a tolerância era zero para as crianças que ousassem fazer malcriação ou cometer qualquer erro.

Naquela mesma época, o Riacho do Salgadinho ainda era um Riacho de verdade. Quase não havia lançamento de esgoto em suas águas. Em vários trechos era possível pescar e os peixes eram preparados e saboreados sem qualquer temor. Também era possível divertir-se banhando-se em suas águas, mas isso era coisa da molecada.

Falando em molecada, Rui, então com seus dez anos de idade, mais ou menos, costumava atravessar a pé a Avenida Maceió (atual Avenida Buarque de Macedo) para voltar da escola para casa, que ficava na Praça 13 de Maio. No caminho passava pela pequena ponte sobre o Canal do Riacho do Salgadinho, nas proximidades da Igreja Nossa Senhora do Carmo.

Na época, a ponte era dividida em três partes, sendo uma para o trilho do trem e duas para os veículos e pedestres, que podiam usar uma calçada bem estreita, com menos de um metro de largura, espremida entre a pista dos veículos e o pequeno guarda-corpo, mais decorativo que seguro. O trilho do trem ficava suspenso sobre as barras metálicas e as pequenas tiras de madeira, sem o "fechamento" de concreto que havia nas áreas para veículos e pedestres da ponte. Ou seja: a ponte do trem era vazada e, claro, imprópria para a passagem de pedestres.

Mas sabemos que um molequinho não é um pedestre comum. Um moleque que se preza gosta mesmo do friozinho na barriga e está sempre à procura de novas aventuras e fortes emoções... Com três possíveis passagens, sendo uma para veículos (perigosa demais, com risco de atropelamento), uma para pedestres (fácil demais, todo mundo passava por lá, apesar da segurança não muito provável) e um vazado, para os trens... Um belo dia, nosso molequinho decidiu testar seu equilíbrio da maneira mais emocionante possível: atravessando a ponte pela passagem dos trens. Pelo menos ele decidiu fazê-lo num momento em que não seria preciso disputar o espaço com um trem de verdade...

Mas, infelizmente para o nosso protagonista, o peso do material escolar pendurado nas costas não o ajudou naquela prova de equilíbrio. Chegando no meio da ponte, desequilibrou-se, balançou-mas-não-caiu e, como o material escolar não estava bem fixo nas costas do menino, acabou soltando-se e caindo, livro por livro, caderno por caderno, no Riacho. O menino parou e, decepcionado, pensou um pouco e imaginou o tipo de punição que receberia caso chegasse em casa sem seu material da escola. Não demorou para tomar sua decisão: acompanhar o material escolar em seu mergulho naquelas águas "quase-sem-esgoto" e resgatá-lo.

Ele prontamente pulou nas águas mais ou menos limpas do Riacho do Salgadinho, recuperou seu material totalmente encharcado e seguiu para casa. Não foi recompensado como imaginou, após tanto empenho naquele resgate exaustivo: chegando em casa, foi recebido com umas boas chibatadas por estar molhado e ter estragado o material escolar.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O medo do elevador

João sempre detestou ter que usar elevadores. Quando podia, preferia encarar os degraus para alcançar o piso de destino, independentemente da quantidade de andares. Mas agora, não possuindo o preparo físico suficiente para suportar o peso da idade e dos problemas de saúde que o acometem, não há mais escolha para João: diariamente ele precisa usar um dos elevadores do prédio onde trabalha para chegar ao quarto andar.

Com o passar dos meses e anos, João acostumou-se com a situação de tal forma que até sozinho ele aprendeu a usar um elevador,  o que pode parecer elementar para os usuários comuns, mas não para João: usar o elevador sozinho é para ele a experiência mais temerosa possível. É o momento em que o medo surge em sua máxima intensidade. Mas ele fica ali, paralisado, aparentando naturalidade, apesar dos olhos arregalados enquanto o painel do elevador segue sua demorada contagem até o número 4.

"Se só tem tu, vai tu mesmo!" - pensa todas as vezes que entra naquele cubo gigante, frio, fechado e metálico. "Pelo menos são só 4 andares" - a viagem é curta o suficiente para manter-se sob controle, sem que as reações involuntárias provocadas pelo medo comecem a se manifestar.

Todos os elevadores daquele edifício empresarial possuem um monitor de 14 polegadas apresentando flashes com as notícias do dia e algumas propagandas, servindo como entretenimento para as pessoas enquanto seguem o trajeto vertical. Mas para João isso é irrelevante: como ele só pensa em descer o mais rápido possível, nada o distrai!

Houve um dia em que João entrou sozinho no elevador, como de costume, para iniciar o expediente. Apertou o botão do quarto andar e respirou fundo enquanto as duas folhas da porta metálica se fecharam. Não demorou para João perceber que o elevador não havia se movido. Olhou novamente para o painel e percebeu que o botão do quarto andar ainda estava apagado. "Hoje eu estou é doido!" - pensou, enquanto apertava o botão pela segunda vez, não lembrando ao certo se havia ou não apertado o botão corretamente. Dessa vez ficou atento e viu que a luz do botão foi acesa. Mas logo depois ela apagou.

Foi o suficiente para o medo assumir o controle sobre João. Já suando, apertou o botão do segundo andar para ver se funcionava e aconteceu o mesmo problema. E assim apertou desesperadamente os botões do primeiro, terceiro, quarto (mais uma vez) e todos os outros andares do prédio. Nenhum botão acendia e o elevador continuava estacionado.

O medo deu lugar ao pânico. Sentindo-se sozinho, preso naquele ambiente fechado e metálico, só havia uma coisa que poderia fazer naquela situação: gritar por socorro, o mais alto que podia, enquanto esmurrava  a porta metálica, na esperança de ser ouvido por algum transeunte no hall.

E ele foi ouvido, ou melhor, visto através da câmera de segurança do elevador. Os vigilantes prontamente verificaram que o painel do elevador não estava funcionando e tentaram se comunicar com João através do sistema de áudio e nem este funcionava. Em menos de um minuto o vigilante já estava em frente ao elevador e acionou o botão para abrir a porta e, finalmente, liberar João.

Ao sair do elevador João estava esbaforido, suando e com as mãos tremendo. Naquele dia não usou as escadas, não foi ao trabalho. Decidiu voltar para casa e lá permanecer até se recuperar do susto.

sábado, 3 de outubro de 2015

Você já pode ir...

Era uma manhã chuvosa. Enquanto percorriam a passos rápidos e em silêncio os corredores do Hospital, Dona Flávia e Francisco, seu filho, sentiam um redemoinho de emoções golpeando o estômago, ressecando a garganta e acelerando o coração. Não fossem os pés encharcados e os guarda-chuvas pingando pelos corredores, eles nem se lembrariam daquela triste chuva.

Não era horário de visitas na UTI, mesmo assim os plantonistas permitiram a entrada de Dona Flávia e seu filho, ansiosamente aguardados na ala onde se encontrava o leito de Seu Antônio. Entubado e com o corpo coberto por todos os aparatos cirúrgicos possíveis, Seu Antônio estava acordado e consciente de seu estado. Sentia-se amordaçado pelo tupo e esparadrapos em seu rosto, mas sabia que, sem eles, já não estaria mais respirando. Depois de mais de vinte dias nesse internamento, ele sabia que seria sua última vez no hospital e que não voltaria mais para casa.

Dona Flávia e Francisco não estavam apenas visitando Seu Antônio: estavam lá para a última despedida. Apesar do medo e tristeza no coração acelerado de Dona Flávia, ela olhou para os olhos de Seu Antônio e segurou a mão direita dele com leveza para não machucar ainda mais sua pele fina e fragilizada, escondida entre esparadrapos e agulhas. Ao som da chuva leve e da aparelhagem hospitalar, não contendo as lágrimas, mas segurando a emoção o quanto podia, respirou fundo e começou a falar, calma e pausadamente:

Meu amor... você já pode ir...

Você lutou com todas as suas forças contra essa doença, fizemos tudo, tudo o que podíamos, nós e os médicos...

Mas o mais importante é que você viveu uma vida digna em todos os sentidos. Você acertou muito e aprendeu o que tinha de aprender com seus erros.

Você soube ser pacífico sem deixar de lutar pelos seus valores.

Você buscou e alcançou o nível profissional e financeiro que você queria, regado a bastante suor do seu rosto e mantendo firme a sua integridade para dar à sua família uma vida confortável em todos os sentidos...

Você equilibrou sua vida profissional com a pessoal de tal forma que alcançou a excelência em todos os papéis que você viveu: profissional, pai, esposo, amigo, filho, irmão, tio, cidadão e todos os outros...

Você aprendeu a compreender as pessoas e a ter paciência com elas.

Você aproveitou muito bem a vida e tudo de belo que poderia ser apreciado.

E estar perto de você sempre foi maravilhoso para todos. Digo mais: foi uma honra!

Nós ficaremos bem.

Sim, sentiremos muitas saudades de você.

Sempre nos lembraremos de você como o homem maravilhoso que você sempre foi.

E sempre seremos gratos por tudo o que você fez por nós.

Você já pode ir, meu amor...

Nós ficaremos em paz.

Amaremos você para sempre...


Francisco permanecia do outro lado da cama, segurando a mão esquerda do pai enquanto afagava os cabelos. Enquanto chorava, ouvia a fala de sua mãe. Preferiu manter-se em silêncio. A tristeza que sentia era grande demais para pedir a palavra.

Seu Antônio fez um movimento sutil com a cabeça, em sinal afirmativo, fechou e abriu os olhos lacrimejantes e olhou para sua esposa e seu filho pela última vez. Fechou mais uma vez os olhos. E assim, sentindo o tremor e as lágrimas de sua esposa e seu filho, ciente de que cumpriu sua missão e que deixaria sua esposa e filho continuarem com as deles, ainda ao som daquela chuva fina, ele se foi. Em profunda paz.