quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Sentimentos sem palavras (parte 1)

Paulo havia crescido num lar silencioso. Era filho único e os diálogos entre seus pais não ultrapassavam os limites do trivial: "Bom dia" - dizia o pai - "Bom dia" - respondia a mãe. "Foi ao supermercado?" - perguntava a mãe - "Fui" - respondia o pai. "O jantar está pronto" - anunciava a mãe e o pai se dirigia para a mesa junto com o filho, onde o silêncio só era quebrado pelos sons acidentais, mas inevitáveis, dos talheres ao esbarrar a louça e o nível de diálogo se mantinha em algo do tipo: "me passe o macarrão, por favor".

Chegando à idade adulta, Paulo conseguiu se sair muito bem nos estudos e se tornou um excelente profissional. Porém, a ausência de comunicação em família resultou numa dificuldade extrema em se expressar nos seus relacionamentos. Possuindo um físico bem trabalhado nos aparelhos de musculação da academia que frequentava, aliado a uma condição financeira confortável e bons modos no trato com as pessoas, comumente era alvo de olhares de mulheres interessantes e interessadas, que tomavam a iniciativa e tentavam alguma forma de contato e aproximação.

Mas como Paulo não havia desenvolvido a habilidade de comunicação, exceto nos ambientes de estudo e profissional, as tentativas de suas pretendentes sempre eram encerradas por falta de feedback. As moças se aproximavam, iniciavam uma conversa informal, e ele se saía bem, inicialmente, sendo simpático e trocando algumas palavras. Mas quando chegava o momento em que elas demonstravam seus sentimentos e que gostariam de estreitar os laços... Paulo queria muito poder dizer o mesmo, pois era verdade. Mas o máximo que ele conseguia era balançar a cabeça afirmativamente e abraçar a moça. Ela, por sua vez, interpretava esse lapso de palavras como falta de interesse da parte dele e, daí em diante, se afastava. Dezenas de moças haviam passado por esse mesmo roteiro, com pequenas variações, e Paulo sofria a cada afastamento, mas continuava incapaz de quebrar esse ciclo vicioso.

Mudar um comportamento pode parecer fácil, mas Paulo sabia o quanto ele se empenhava e se frustrava com a falta de sucesso de suas tentativas. Nem mesmo anos de psicoterapia e aconselhamento foram capazes de mudar seu jeito de ser. Depois de tanto esforço e, praticamente, nenhum resultado, Paulo havia se resignado ao fato de que não seria capaz de se comunicar adequadamente e, portanto, não conseguiria iniciar nem manter um relacionamento da forma como ele sonhara.

Mas Paulo estava errado. Eis que, num belo dia, ele conheceu uma moça que iria mudar esse roteiro repetitivo. O nome dela era Kaya, que significa "filha do lar" em Japonês. Ela havia chegado ao Brasil junto com seu pai, que tinha interesse de montar negócios e se fixar no nosso território. Mas a única palavra que eles sabiam pronunciar em Português era "obrigado".

Continua...

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A viagem

- Eita, amor, quer dizer que você só vai sair daí de Recife à meia-noite? – Fabinho falava comigo de Maceió, onde me aguardava.

- É, Fabinho... eu não tenho outra escolha... – falava da Rodoviária de Recife, por volta das 19 horas e alguns minutos.

O Vôo de Natal para Recife atrasou, então não cheguei à Rodoviária a tempo de comprar a passagem e embarcar no ônibus que partiria para Maceió às 19 horas, como eu havia programado. Se fosse outro dia da semana, eu poderia pegar algum ônibus que saísse de Recife às 20 horas. Mas, naquele dia, o próximo ônibus só sairia da Rodoviária à meia-noite para chegar em Maceió às 4 e meia da manhã.

Não lembro o que eu fiz para passar o tempo naquela noite. Devo ter feito um lanche, olhado as vitrines das poucas lojas que estavam abertas e ficado sentada, esperando. Talvez eu tenha levado algum livro para ler. Talvez eu tenha assistido um pouco de TV. Enfim, passadas as quase 3 horas de espera, chegou o momento de embarcar e seguir para Maceió.

Terminado o embarque, o ônibus fez as manobras para sair da área das plataformas e partiu do TIP. Como eu estava sentada do lado de uma janela, inicialmente eu fiquei observando as casas e luzes ao longo do percurso. Mas depois de cerca de 30 minutos de paisagens não muito atrativas aos olhos, fechei a cortina de tecido com o velcro, reclinei a poltrona, enrolei a alça da bolsa em meu braço, colocando o outro braço por cima dela, e o sono começou a bater.

Mesmo com a cortina fechada, ainda era possível ver muitas luzes. Luzes de postes, casas, carros, motos, outros ônibus... E o balançar do ônibus parecia bastante incômodo. “Não vou conseguir dormir”, pensei.

De repente, sinto alguém cutucando o meu ombro. Era o funcionário da empresa de ônibus. “Já chegamos, senhora.” Ainda muito sonolenta, levantei a cabeça e vi que o ônibus estava muito bem estacionado na plataforma da Rodoviária de Maceió. As luzes do ônibus estavam apagadas e eu era a única passageira que ainda não havia desembarcado. E minha maior tranquilidade foi constatar minha bolsa com a alça ainda enrolada em meu braço, com o conteúdo intacto, e minha bagagem do lado de fora, ao lado do ônibus, apenas esperando que eu a recolhesse...