quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Grávida por conveniência

Aos 15 anos de idade, Thaís era uma menina extrovertida e de bem com a vida. Tinha os olhos azuis, claros como o céu, e seus cabelos loiros iam até a cintura. Era boa aluna na escola, boa amiga com as que lhe eram próximas e boa filha em seu ambiente familiar.

Aos 16 anos, Thaís continuava a mesma, exceto por uma pequena mudança em sua aparência: havia ganhado alguns quilinhos a mais. Isso a fazia sentir-se um pouco desconfortável, mas estava sempre arrancando risos e mais risos das pessoas à sua volta com as piadas que fazia consigo mesma. A comédia era a sua arma na luta para manter a auto-estima elevada.

Sua brincadeira favorita era inflar o estômago e aparecer para os mais íntimos com a barriga arredondada, passando a mão suavemente e simulando uma expressão de coitadinha. Todos já conheciam essa brincadeira, mas as situações em que ela aparecia e, repentinamente, transformava-se em "grávida", eram tão inusitadas que todos caíam na gargalhada sempre que o teatrinho era repetido.

Um belo dia, sua mãe pediu-lhe que pagasse uma conta no Banco. Na época não havia opções de pagamento por Internet Banking ou Casas Lotéricas. Menos ainda existia a hipótese do Smartphone. Só restava a opção de enfrentar a fila para usar os Caixas Eletrônicos.

Naquele dia, Thaís entrou no Banco e sentiu um alto desânimo com a expectativa de passar pelo menos 40 minutos para chegar a sua vez de usar um dos Caixas Rápidos que, naquele dia, estavam mais para "Caixas Lentos". Caminhou desolada, procurando o final da fila, até que percebeu algo que fez acender uma pequena "lâmpada" de "ideia" em sua mente.

Olhou para o Caixa Preferencial, destinado ao atendimento prioritário de idosos, portadores de deficiência, pessoas acompanhadas de crianças de colo e... gestantes! Não havia fila para aquela máquina, que estava sendo usada por um idoso e, portanto, logo estaria disponível. Sem parar para pensar, já se viu inflando sua barriga arredondada o máximo que pôde, caminhando em direção ao Caixa Preferencial, repetindo a expressão facial e os toques suaves com as mãos que tanto havia repetido em suas sessões de piadas para os amigos.

Cinco minutos depois, saía do Banco feliz por ter atendido ao pedido da Mãe e por ter mais uma história hilária para contar. Mas, passados alguns minutos, teve uma sensação estranha: sentiu que, embora não tivesse atrasado o atendimento de nenhum usuário do Caixa Preferencial, achou que não foi justo passar à frente de todas aquelas pessoas que estavam enfrentando a fila honestamente. Sentiu-se desonesta e arrependeu-se daquela situação.

Ao entregar a conta paga para sua mãe, contou-lhe o ocorrido, inclusive que havia se arrependido da "gravidez simulada". Sua mãe respondeu-lhe:

- Minha filha, todo mundo, em algum momento da vida, fica tentado a fazer algo que não é certo e acaba fazendo. Acaba, inclusive, contando a si mesmo a mentira de que era para ter feito aquilo mesmo, que o fez porque é mais esperto do que os outros. Mas Deus está vendo tudo, minha filha, e Ele viu que você se arrependeu. Use seu arrependimento para crescer, não para martirizar-se.

Thaís tranquilizou-se com as palavras que ouviu de sua mãe. Continuou a repetir a piada da "falsa gestante", mas decidiu nunca mais usar a "fantasia" como naquele dia do Banco. Só voltou a usar o Caixa Preferencial anos mais tarde, mas com uma barriga de gestante de verdade!

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

A compra do vestido

Estava no início de um ano comum. Tendo sido convidada por uma amiga querida para ir ao casamento da filha dela, que seria uma cerimônia diurna e ocorreria um pouco antes das festividades carnavalescas e num tipo de sítio, decidi sair em busca de um novo modelito para usar naquela ocasião relativamente especial. Já que seria uma festa durante o dia e, não fazendo parte do seleto grupo de madrinhas, esse modelito seria comprado para uso em ocasiões posteriores diversas, tais como festas de aniversários ou saídas para restaurantes.

Chegando a uma determinada loja que até então eu não conhecia, em resposta à abordagem da vendedora que prontamente se aproximou, informei que estava à procura de um vestido para um casamento durante o dia. Daí ela me conduziu até a sessão onde estavam os vestidos de gala, próprios para uma cerimônia noturna ou para uma madrinha de casamento. Passei uma vista rápida pelos cabides, como quem folheia um livro para se ter uma noção de seu conteúdo, e constatei que, além de não serem o tipo que eu procurava, eles estavam acima da faixa de preço que eu havia pré-determinado a mim mesma.

Voltei à vendedora e esclareci que, não sendo madrinha do referido casamento, que seria diurno, eu procurava um vestido um pouco mais simples do que os que estavam naquela sessão. Segui então pela extensa arara, onde as roupas à venda estavam agrupadas de acordo com cores, tipos e tamanhos para as mais diversas ocasiões. Cheguei então à sessão de roupas para uso um pouco mais convencional e vi uma peça que despertou meu interesse.

Era um vestido com estampa florida num fundo branco, estilo tubinho, de comprimento, cores e modelo compatíveis com o casamento diurno e as ocasiões posteriores em que ele voltaria a ser usado. Como eu realmente havia gostado dele, puxei o cabide onde estava pendurado, vi que estava dentro da minha faixa de preço e comentei, demonstrando interesse de prová-lo e, possivelmente, comprá-lo:

- Ah, esse está interessante!

Foi quando a vendedora, de braços cruzados, numa clara tentativa de fazer com que me sentisse constrangida com minha escolha para que eu voltasse à sessão dos vestidos e preços de gala, respondeu, sem tentar disfarçar o sarcasmo na voz:

- É, está interessante sim... Para o Carnaval!

Devolvi a peça na mesma hora, despedi-me e segui para a saída da loja. Aquela abordagem antipática foi o suficiente para me fazer desistir de comprar o tomara que caia que eu havia gostado. Feriu meu ego, perdeu a cliente em potencial.


Minutos depois, estava comprando outro vestido em outra loja, embora estivesse um pouco acima da faixa de preço inicialmente definida. Por quê? Meu teto pode ser alterado a qualquer momento de acordo com a minha própria vontade, e não por influência de uma vendedora abusada.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

Mestrado gera traumas?

No Campus da Universidade Federal de Santa Catarina, em Florianópolis, é ofertada aos alunos e à comunidade em geral uma vasta programação de atividades, que vão desde esportes diversos no Centro de Educação Física, até defesas de teses e dissertações em todos os prédios onde há programas de pós-graduação Stricto Sensu. O momento das defesas costuma ser prestigiado por vários alunos, que têm seus vários motivos para interessarem-se em assistir às defesas. O motivo mais comum costuma ser o interesse de ouvir as observações da banca examinadora para evitar cometer determinados tipos de erros quando do desenvolvimento do trabalho de sua própria autoria.

Amanda havia se programado para comparecer e assistir à defesa de uma dissertação de mestrado cujo título a havia interessado. No dia, horário e local informados no cartaz de divulgação lá estava ela, acomodada num dos assentos do auditório com seu bloquinho de anotações pronto para ser castigado com todos os garranchos que conseguisse anotar enquanto ouvisse a apresentação e as considerações dos professores examinadores. Ela não esperava testemunhar o que estava por vir.

O autor do trabalho iniciou as explanações, fazendo uso do projetor multimídia para exibir os slides da apresentação. O desenvolvimento de um trabalho de mestrado costuma durar de um ano e meio a dois anos, que são consolidados nas páginas de um texto chamado "dissertação", com número de páginas bastante variável, mas pode-se esperar cerca de 100 páginas ou mais. A apresentação oral deve ser realizada em até 20 minutos, onde o autor costuma esforçar-se ao máximo para condensar um trabalho realizado entre 18 e 24 meses. São 1200 segundos disputadíssimos pelo autor, que faz questão de cada segundo para a sua exposição. Mas Amanda não acreditou no que viu na apresentação daquele trabalho.

Em menos de dez minutos, o autor já estava expondo o slide com os dizeres "Muito Obrigado!", indicando que a exposição já havia sido concluída. Amanda e os demais ouvintes no auditório imediatamente transferiram a atenção para os membros da banca e aguardaram ansiosamente o que eles tinham para dizer. O primeiro professor, ao tomar o microfone, fez a seguinte pergunta ao autor:

- Fulano, tenho uma primeira pergunta para você. Quanto tempo, ao todo, você levou desenvolvendo esse trabalho que aqui temos em avaliação?

E o Fulano, todo sem jeito, respondeu:

- Bem, algumas coisas aconteceram... Eu mudei de orientador depois de alguns meses, depois mudei de tema, depois isso, depois aquilo... E, quando comecei a escrever o texto, eu só tinha o prazo de três meses... e assim eu fiz, mas me dediquei exclusivamente a isso e só dormi 4 horas por dia nesse período...

- Bem, Fulano. Tenho uma ótima notícia para você. A partir de hoje, você terá o prazo de três meses para transformar esse texto, que você nos apresentou, numa dissertação de verdade.

Burburinhos foram ouvidos em todo o auditório. Amanda arregalou os olhos e deixou seu maxilar pendente. Enquanto isso, o professor continuou a fazer suas considerações e explicou que aquele trabalho que, entre outros defeitos, não possuía conexão entre o título e os objetivos, nem metodologia embasada e adequada, nem descrição dos resultados, nem conclusões relacionadas aos objetivos, não poderia ser considerado uma dissertação.

Na época, o então "Orkut", recheado de comunidades dos mais diversos tipos, possuía uma com o nome de "Mestrado gera traumas?". Certamente o "Fulano" tinha uma boa justificativa para participar dessa comunidade.

Meses depois, Amanda acompanhou o desenrolar da situação de Fulano e viu que o trabalho dele acabou sendo aceito depois de uma nova defesa. Depois de novas considerações da banca, o trabalho deve ter sido, finalmente, transformado numa dissertação de verdade.

sábado, 14 de novembro de 2015

Os barquinhos de papel

- Papai, faz um barquinho de papel pra mim?

O pai de Mel já esperava aquele pedido. Ao fim de um dia chuvoso, pequenas poças d´água formavam-se no jardim e, passada a chuva, aos olhos de Mel, aqueles pequenos lagos pediam barcos para serem velejados pela leve ventania. Mel apenas esperou a chuva passar para fazer o pedido ao pai.

- Você quer um barco? - fez-se desentendido - Então deixe-me mostrar a você como se faz!

- Não, não Papai! Eu quero que o senhor faça um pra mim!

O pai de Mel tentava insistir para ensinar à filha o método de dobradura do barquinho, mas ela sempre recusava a instrução.

- Mas Mel, vamos aprender a fazer um barquinho? Assim você vai poder fazer quantos barquinhos quiser, sempre que quiser, sem precisar do pai pra isso! Vamos?

- Não, Papai! Faz um barquinho pra mim! Por favor! Eu quero um barquinho seu!

A insistência do pai não era maior do que a teimosia da filha, de modo que o pai acabava cedendo e atendendo ao pedido. O barquinho então era posto para flutuar nos pequenos lagos do jardim, enquanto Mel observava e sorria para o pai.

Os anos se passaram e, aos poucos, Mel foi deixando sua meninice e seus pedidos de barquinhos enquanto tornava-se adulta. O tempo passou mais um pouco e o pai de Mel tornou-se o Vovô de Thaís, filha de Mel.

Quando Thaís tinha seis anos, estando na casa do Vovô num dia chuvoso, ao observar as poças d´água no jardim, virou-se para o Vovô e perguntou:

- Vovô, faz um barquinho de papel para mim?

O Vovô não pensou duas vezes. Pegou o primeiro pedaço de papel que encontrou e fez as dobraduras com a mesma agilidade com que fazia os barquinhos para Mel. Entregou o barquinho para Thaís e comentou:

- Mel, lembra-se que era você quem gostava de barquinhos de papel? Mas como você nunca quis aprender a fazer o barquinho, você sempre dependia de mim para fazer...

- Papai, eu sempre soube como fazer barquinhos de papel.

- Hã? Como assim? E por que você sempre me pedia pra fazer?

- Porque eu gostava mesmo dos barquinhos que o senhor fazia! Para mim, eles eram mais do que simples pedaços de papel dobrados: eu gostava de ver como o senhor fazia para dobrá-los perfeitamente... cada dobra era tão bem medida, tão bem cuidada, e o resultado era um barquinho tão perfeito, que eu não tinha interesse de fazê-los eu mesma... eu queria os seus barquinhos porque eles representavam o cuidado, amor e carinho que o senhor demonstrava por mim...

O pai de Mel, avô de Thaís, ficou tão comovido com as palavras de Mel que, desde então, a cada visita de Mel e Thaís, as recebia com dois barquinhos de papel prontos para entregá-las. Independentemente das condições climáticas, havendo ou não pequenos lagos no jardim.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Mainha, já esfriei!

Três crianças numa mesma casa aprontavam muita coisa: brincavam juntas, assistiam TV, andavam de bicicleta, faziam birra, choramingavam... e disputam tudo o que podiam e queriam. Quando aconteciam os problemas mais sérios, recorriam às instâncias superiores: Painho e Mainha. Mas a avaliação desses "problemas mais sérios" ficava por conta das crianças.

- Mainha, o Léo tirou o meu brinquedo do lugar onde eu tinha deixado! - minha irmã se queixou com minha mãe, e o tom de voz indicava que a coisa era séria.

- Oh, céus, que problema sério! - respondeu minha mãe com ar de ironia, o que deixou a minha irmã ainda mais chateada com a situação.

- Mas ele tirou, Mainha! Eu tinha deixado aqui porque eu estava brincando, mas eu iria voltar depois! Aí eu cheguei e não encontrei o brinquedo! - continuou a reclamação.

- Ohhhh, vamos resolver esse problema seriíssimo! - Minha mãe partiu então para resolver o problema de maneira civilizada e diplomática – Léo, cadê o brinquedo da sua irmã? - Ele apontou – Foi você que tirou dali? - Ele respondeu afirmativamente – Quando você tirar uma coisa do lugar, tem que botar de volta, não é? Então pegue o brinquedo e coloque de volta no lugar.

Dadas as instruções e explicações, o Léo obedeceu e colocou o brinquedo de volta ao lugar de onde nunca deveria tê-lo retirado.

Pronto! Resolvido o problema? - minha mãe se voltou para a autora da ação, que balançou a cabeça respondendo que sim e, logo em seguida, voltou a brincar tranquilamente. Pelo menos até o próximo conflito...

Muitas vezes a solução diplomática era suficiente para esses problemas “sérios”. Mas eventualmente o grau de seriedade se elevava para além das conversas amigáveis e os ânimos se exaltavam um pouco mais do que o normal. Nesses momentos, minha mãe adotava uma medida que foi bastante útil não somente para resolver os problemas de curto prazo, mas também para aprendermos a controlar nossas emoções: separava a criança "agitada" das outras e esta deveria ficar sozinha numa determinada área da casa (normalmente o quintal) até que seu ânimo se normalizasse. Minha mãe chamava esse processo de "esfriamento".

Para determinar se a criança estava "quente", minha mãe adotava critérios intuitivos, mas ao mesmo tempo objetivos. Ao olhar para a criança, se percebesse certa agitação, ela dizia:

- Deixe-me ver seu olho... Cadê a mãozinha? É.. Estou vendo que está quente... Vai ter que esfriar... - Uma observação direta dos olhos e das mãos da criança eram o suficiente para diagnosticá-la como "quente" ou "fria".

E assim, todas as vezes em que eu ou meus irmãos estávamos, ao olhos da minha mãe, “quentes”, sabíamos que teríamos que ficar isolados e quietos, até que “esfriássemos”. Não havia um tempo pré-determinado para esse tempo de isolamento – cada criança ficava isolada o tempo suficiente para seu esfriamento. Provavelmente durava apenas alguns minutos.

- Mainha, já esfriei! - avisávamos quando sentíamos que já estávamos calminhos... ou nem tanto, mas queríamos sair do castigo mais cedo.

- Já esfriou? Em tão pouco tempo? Deixe-me ver... Hum... Não esfriou, não! Vai ficar mais um pouquinho até esfriar mais!

Não havia possibilidade de burlar a análise da minha mãe. Só éramos liberados quando havíamos “esfriado” de verdade!



Assim, graças a esse método infalível de esfriamento ao qual fomos submetidos durante nossa infância, atualmente somos considerados pessoas tranquilas, que não se estressam com facilidade. Na realidade, nós nos estressamos sim. Mas, depois de alguns minutos “esfriando”, estamos prontos para resolver todos os problemas com a tranquilidade necessária!

sábado, 31 de outubro de 2015

Michael J Fox e a Princesa Diana

O ano era 1989 e estava tudo pronto para a solenidade de estreia de "De volta para o Futuro II". O sucesso de bilheteria do primeiro filme tornou possível a produção desse segundo filme, onde os protagonistas fazem uma viagem de trinta anos  para o futuro, com uma série de efeitos especiais da mais alta tecnologia na época. Os trailers previamente exibidos nas salas de cinema deixaram os espectadores especialmente entusiasmados com as cenas do tubarão virtual e dos pequenos relances do cenário imaginado para o ano de 2015. Numa época em que praticamente não existia internet nem pirataria, o mundo inteiro aguardava a estreia daquele filme, que tinha tudo para repetir ou mesmo superar o sucesso do primeiro.

Para Michael J Fox e os demais atores, diretores e produtores, aquela noite reservava uma honraria adicional: entre os convidados especiais para a cerimônia de estreia estariam os membros da Família Real da Inglaterra nas pessoas da Princesa Diana e do Príncipe Charles. Como a presença e participação da Realeza num evento como esses exige uma série de protocolos especiais, primeiramente os atores e demais personalidades receberam as orientações da equipe de apoio sobre as normas de conduta e comportamento na presença da Família Real.

"Não é permitido se dirigir diretamente a um membro da Família Real, a não ser que esse membro se dirija primeiramente a você; Não é permitido virar as costas para nenhum membro da Família Real". Michael ouviu atentamente a todas as normas de conduta e estava determinado a segui-las corretamente. Naquele momento de sua vida profissional, não estava disposto a pôr tudo o que havia sido conquistado com tanto trabalho e sacrifício à toa, por cometer uma gafe com a Família Real num evento tão importante como aquela estreia.

No hall da sala de cinema, os atores e produtores aguardavam a chegada da Família Real enquanto ouviam, pela última vez, as normas de conduta sendo repetidas novamente pela equipe de apoio. A Realeza então entrou no hall e tanto o Príncipe Charles como a Princesa Diana se dirigiram aos atores e produtores e os cumprimentaram individualmente. Michael sentiu-se momentaneamente aliviado por conseguir vencer aquela prova de etiqueta impecavelmente e, junto com o grupo, partiu para a sala onde o filme finalmente seria exibido.

Michael tomou seu assento e ficou aguardando o início do filme. Olhou para o lado direito e, percebendo que o assento estava vazio, por um instante parou para imaginar quem poderia sentar-se ao seu lado. Poucos instantes depois, eis que se senta naquele assento ninguém menos que a Princesa Diana. Inicialmente, Michael sentiu-se feliz com tamanha honra e, em alguns momentos, ficou tentado a simular um bocejo falso para esticar o braço e abraçá-la... Mas essa tentação ficou resumida a seus pensamentos. Porém, minutos após as luzes se apagarem para o início do filme, algo aconteceu que o preocupou bastante.

Sentiu necessidade de levantar-se para ir ao banheiro. Isso não seria um problema caso a Realeza não estivesse ao seu lado. Mas, tendo em vista tantas normas de comportamento e conduta a seguir, viu-se em apuros: Não poderia dirigir-se diretamente à Princesa e pedir licença para passar por sua frente para ir ao banheiro, pois a Princesa estava distraída assistindo ao filme e não havia lhe dirigido a palavra. Tampouco poderia seguir pelo outro lado, pois não poderia virar as costas para ela, a não ser que seguisse no estilo "moon walk", o que poderia causar ainda mais transtornos para alguém que não queria pôr tudo a perder.

Estando aprisionado por todos os lados, tomou a decisão mais dolorosa, porém mais segura: permaneceu sentado durante todo o filme. Sentiu fortes dores físicas por ter que prender sua necessidade fisiológica. Mas, terminado o filme, o evento de estreia e, claro, depois de finalmente ser possível seguir para o banheiro sem cometer uma gafe com a Família Real e aliviar sua tensão e suas dores, Michael pôde sair do evento com a sensação de missão cumprida. Uma missão que se tornou dolorosa, mas foi cumprida sem gafes.

terça-feira, 27 de outubro de 2015

O episódio do vestidinho

A família de Lívia sempre foi bastante conservadora. Sendo a única mulher e a filha mais nova de quatro irmãos, era tratada como a "princesinha" da casa enquanto criança. Mais tarde, à medida que seu corpo foi ganhando forma e proporções menos infantis e mais adultas, foi cercada de cuidados, proteção e avisos de seus irmãos e pai. Como estamos falando de uma época relativamente antiga, eram costumes que não causavam estranheza.

Cercada sempre por tantas orientações e precauções de seus parentes, ao ingressar na Faculdade Lívia manteve seu foco estritamente nos estudos e, mais tarde, nos estágios e trabalhos. Porém, eventualmente recebia olhares de um ou outro rapaz, seguidos de convites singelos para ir ao cinema ou fazer um passeio para tomar um sorvete. Todos os pedidos eram negados sistematicamente e Lívia se dirigia para casa imediatamente após o fim de cada aula ou expediente.

Alexandre, um de seus colegas de classe, observava essa movimentação e permanecia e silêncio. Interessado em aproximar-se um pouco mais de Lívia, percebeu que uma abordagem convencional não surtiria efeito e, portanto, teria que usar uma estratégia diferenciada. Passaram-se semanas, meses, até que chegou o momento que ele sabia ser a oportunidade ideal. Bolou um plano e o pôs em prática, mesmo não tendo certeza do seu sucesso.

Num dos intervalos das aulas, Alexandre aproximou-se da banca onde Lívia estava sentada e disse -lhe que precisaria de uma ajuda "feminina" para resolver um pequeno problema. Lívia então ouviu atentamente Alexandre contar-lhe que sua mais nova sobrinha iria completar seu primeiro ano de vida e que ele gostaria de presenteá-la com um vestidinho, mas teria dificuldade para escolhê-lo por não estar acostumado com esse tipo de coisa. Depois de explicar cuidadosamente a situação, perguntou a Lívia se ela poderia ajudá-lo.

- "Terei que pensar um pouco, mas amanhã eu lhe digo, pode ser?" - respondeu Lívia, que passou o resto do dia pensando sobre o assunto.

Mas o pensamento de Lívia não focou no tipo de vestidinho ou na loja poderia sugerir ao amigo. Ela pensou: "Puxa, como esse rapaz é preocupado e cuidadoso com a família! E pelo jeito ele realmente confia em mim, pois ele poderia pedir esse favor a qualquer outra pessoa, mas de certa forma ele me escolheu para ajudá-lo...". Com aquele pedido simples e incomum, sentiu-se valorizada e, ao mesmo tempo, admirada com as prováveis qualidades daquele rapaz.

No dia seguinte, Lívia respondeu a Alexandre que sim, iria ajudá-lo a escolher o vestidinho para sua pequena sobrinha. Depois desse episódio, nas semanas seguintes outros pequenos ganchos surgiram e facilitaram a continuidade da aproximação entre Lívia e Alexandre. O tempo passou e o que era uma amizade transformou-se num relacionamento, que persiste há mais de trinta anos desde o episódio do vestidinho.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Letícia e os desenhos animados

- Vamos ver um desenho, Letícia?

- Não!

Com a negativa de Letícia, de dois anos de idade, decidi repetir a pergunta de uma maneira mais específica:

- Vamos ver a Galinha Pintadinha?

- Eeeeeeh, Galinha Pintadinha!!! - disse Letícia em grande animação enquanto saía do quarto para a sala, onde rapidamente subiu, sentou-se no sofá de frente para a TV e ficou aguardando que a Tia ligasse o aparelho, onde ela havia deduzido que apareceria a Galinha Pintadinha.

- Não Letícia, vamos ver a Galinha Pintadinha no celular da Tia!

Sentei-me na poltrona-de-balanço da minha mãe (em outra postagem eu contarei sobre um ocorrido com esse móvel, aguarde!), coloquei a almofadinha branca de crochê na altura certa para apoiar a cabeça da Letícia, que se sentou no meu colo e ali ficou bem acomodada esperando a sessão de desenhos da Galinha Pintadinha que estava para começar a ser exibida no celular que eu segurava com a mão esquerda, apoiada no braço da poltrona-de-balanço.

Cliquei no ícone do Youtube, digitei "galinha pintadinha" no campo de pesquisa, apareceram vários vídeos disponíveis e Letícia já foi botando seu dedinho indicador direito para escolher o ícone do desenho que ela gostaria de ver naquele momento. Começou então a exibição do primeiro vídeo, com a música:

Borboletinha tá na cozinha.
Fazendo chocolate para a madrinha.
Poti, poti. Perna de pau.
Olho de vidro. E nariz de pica-pau
Pau-pau!

- Não! - mal acabou a primeira repetição da música, Letícia já pediu para mudar o vídeo. Então cliquei para retornar à tela das opções para ela selecionar com o seu dedinho sabido.

- Lobo mau! Lobo mau! - Ao identificar o vídeo dos "Três Porquinhos", Letícia clicou para assistir o personagem que lhe veio à lembrança.

Quando o vídeo começou, ela começou a uivar como o lobo mau: "Auuuuuuuh, auuuuuh!". E eu, uma Tia participativa que gosta de uma boa brincadeira, comecei a uivar junto com ela: "Auuuuuuuuh, auuuuuh!". Foi então que Letícia parou de uivar, inclinou sua cabecinha, desviando o olhar do celular para ver o que a Tia estava aprontando. Continuei os uivos: "Auuuuh, auuuuuuuuuuh! Auuuuuuuuuuuuuh!"

- Não, Tia! Só eu! - Letícia brecou a minha participação no jogo da imitação do Lobo Mau, pois preferia brincar sozinha.

- Sim, senhora! - respondi e calei-me.

Continuamos a ver os desenhos escolhidos por ela até que, minutos depois, minha irmã notou que Letícia já não estava mais a assistir o desenho da "Chapeuzinho Vermelho" que passava, pois já havia caído no sono.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

O "Tombão"

Artur trabalhava naquela pequena Fábrica como funcionário terceirizado fazia quase 2 anos, contratado, na realidade, por uma Empresa Multinacional. Sendo o único analista de TI do local, era considerado o "faz tudo" da fábrica. Algum problema para acessar o e-mail? Chama o Artur! O computador não quer ligar? O Artur deve saber como resolver isso. Faltou energia na cidade? Pergunta ao Artur quanto tempo vai demorar para voltar ao normal...

A rotina de trabalho de Artur era, portanto, bastante agitada, de modo que ele passava o dia apagando  os "incêndios" que surgiam nos vários setores da empresa. Sobe as escadas, desce as escadas, segue pelo corredor, vai até a área de produção, volta à sua sala. Novos problemas exigiam novas soluções, mas como a maior parte deles era reincidente, sentia que as coisas permaneciam razoavelmente sob controle.

Porém, naquelas idas e vindas sempre apressadas, os degraus das escadas se tornaram, aos poucos, suas velhas conhecidas. Aos poucos foi ganhando uma confiança crescente naquelas subidas e descidas e aumentando cada vez mais a velocidade para percorrer aqueles degraus, fosse subindo ou descendo. Até porque quanto menos tempo levasse para alcançar os locais onde estavam os problemas, mais rápido poderia solucioná-los.

Ocorre que chegou o dia em que suas pernas, tão confiantes com os degraus do caminho, pregaram-lhe uma peça sem o seu consentimento. A perna direita disputou corrida contra a perna esquerda que, para não ficar atrás, aceitou o desafio. Conseguida a ultrapassagem da perna esquerda sobre a direita, a corrida terminou com o desequilíbrio e, consequentemente, uma drástica queda de Artur, já próximo ao pavimento superior. Com a queda, Artur acabou rolando do topo até a base da escada e, no meio da confusão, foi premiado com hematomas e escoriações por todo o corpo, além de uma fratura no braço esquerdo.

Foi prontamente socorrido e encaminhado ao hospital mais próximo. Enquadrado como um acidente de trabalho, foi necessário efetuar todos os registros prescritos nas Normas Regulamentadoras de Segurança do Trabalho. Por fim, recebeu um atestado médico solicitando 15 dias de repouso das atividades laborais.

Para Artur, aqueles 15 dias foram longos e entediantes, já que estava tão habituado a estar sempre correndo para cima e para baixo, literalmente. Ao retornar ao trabalho, retomou a velha rotina de idas e vindas até os focos de "incêndio tecnológico". E, para a sua surpresa, ao se aproximar novamente da escadaria onde havia acontecido o acidente, observou que a Fábrica, como medida preventiva, não precisou reformar a escadaria nem fazer grandes alterações. Apenas foi afixado um cartaz com os seguintes dizeres, em letras cômicas:


"Ei, amigão!
Use o corrimão!
Porque senão 
Você pode levar um tombão!"

sábado, 17 de outubro de 2015

O carro branco do outro lado da rua

Júlio havia mudado de cidade para iniciar o curso universitário. Entre as idas e vindas com destino à biblioteca, às salas de aula e aos laboratórios, percebeu que aquela menina sempre seguia os mesmos trajetos que ele. E, por algum motivo, a presença dela chamava tanto a atenção dele que, por onde passava, estava sempre a procurando quando percorria os caminhos do Campus.

Tímido, não conhecendo ninguém na cidade e ainda não entrosado com os colegas de classe, com o passar dos dias e semanas Júlio havia visto a menina em várias ocasiões, mas continuava desconhecendo o nome dela e ainda não havia aparecido uma oportunidade conveniente o suficiente para que ele se dirigisse a ela para, pelo menos, trocar um "oi!".

Depois de algumas semanas, foi convidado a participar de uma pequena confraternização dos colegas de classe. Ao chegar no local, seu coração disparou ao ver que a menina, que era uma das amigas das colegas da faculdade, também estava presente. Foram finalmente apresentados e começaram a conversar. Agora já sabia o nome da menina: Gabriela!

Naquela noite, conversaram bastante sobre temas variados. Descobriram alguns pontos em comum e o papo foi tão agradável que nem perceberam o quanto havia passado o tempo e que a festa já estava no fim. Educadamente, ofereceu carona a ela e suas amigas, já que estava de carro. Contrariando sua torcida, ela seria uma das primeiras a serem deixadas em casa, considerando a rota que ele faria e os destinos das outras moças.

Ela morava num conjunto residencial popular. Parecia um grande labirinto de casas iguais, ruas extensas e  quadras que se diferenciavam apenas pela numeração. Mas, entretido com as conversas no carro, acabou prestando atenção num único ponto de referência da casa de Gabriela: um carro branco estacionado no lado oposto da rua. Despediram-se com dois beijinhos no rosto. Ela entrou em casa e Júlio seguiu seu itinerário de "entregas" até chegar em casa.

A semana passou e ele só pensava em voltar a ver Gabriela pelo Campus, como de costume. Mas passou segunda, terça, quarta e nada. Chegou a quinta-feira e nada. Na sexta, a mesma coisa: nada de Gabriela. Ao chegar o sábado, decidiu telefonar. Naquela época, o telefone fixo era a única opção para se entrar em contato com alguém. Conversaram, conversaram e conversaram por telefone. Marcaram então para ir ao cinema.

No horário combinado, Júlio estava dirigindo pelo conjunto habitacional onde morava Gabriela. Não foi difícil refazer o caminho até a quadra e a rua da casa dela. O problema foi encontrar a casa. Cadê o carro branco que estava parado no lado oposto da rua? Esse havia sido o único ponto de referência que ele lembrava. E, numa época em que não havia celular e smartphone, não havia a possibilidade de telefonar para tirar a dúvida quando já se estava dirigindo.

Sentiu certo desespero. Seguiu com o carro pela rua, indo e voltando, numa tentativa desesperada de tentar lembrar qual era a casa dela. Mas todas as casas eram iguais, exceto pelo número, que ele não havia anotado e nem lembrava qual era. Continuou seguindo, sem rumo certo, tentando dar uma chance à sorte.

Por acaso, a menina apareceu na porta de casa no momento em que ele estava passando por perto. Estacionou rapidamente, como se soubesse que aquela era a casa. Desceu do carro para cumprimentá-la e, antes de voltarem ao carro, daquela vez ele teve o cuidado de observar e gravar mentalmente o número da casa. Não precisou anotar. Aquele número ficou tão gravado em sua memória como ficou o episódio. Daquele dia em diante, passou a ter mais atenção para memorizar pontos de referência fixos de todos os lugares para onde teve que ir.

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Quer ir ao banco com a Mamãe?

- Quer ir ao banco com a Mamãe? - Andrea perguntou à filha Júlia, de apenas 3 anos de idade. Claro que foi uma pergunta retórica, já que para Julinha não haveria opção que não fosse acompanhar a mãe em sua ida ao banco, pois Andrea não teria com quem deixar a menina naquele momento.

A jovem Julinha, no auge dos seus 3 anos de idade, ouviu aquela pergunta que logo se multiplicou em várias outras perguntas em seu imaginário. "O que é um banco? Os bancos que eu conheço são móveis para as pessoas se sentarem. E por que Mamãe me perguntou se eu quero ir? Eu deveria querer ir também? O que será que acontece lá para  a mamãe ter que ir e, mais do que isso, o que será que tem pra mim lá?"

- É o lugar para onde as pessoas vão quando querem sacar dinheiro e pagar contas! - respondeu Andrea pacientemente, já acostumada com a infinidade de perguntas da Julinha.

Humm, estou começando a entender... Deve ser um lugar muito, muito grande, onde cabem muitas pessoas e também o montão de dinheiro que elas vão lá pra buscar! Imaginou um grande prédio em formato de "banco de sentar", com um portão enorme por onde as pessoas entravam e saíam carregadas de sacolas enormes, sinalizadas com o símbolo do cifrão que ela aprendera nos desenhos animados. Ficou curiosa e concluiu ser interessante a ideia de ir ao banco, pois assim poderia descobrir como é um. Durante todo o caminho, ficou imaginando várias versões possíveis para a aparência do "prédio em forma de banco de sentar", todas baseadas nos tipos de banco que ela já havia visto em casa, na escola ou nas praças por onde já havia passado.

Chegando ao banco, Julinha não se impressionou com o formato convencional do prédio. Nem com a fila das pessoas para atendimento, ou o barulho dos teclados, impressoras matriciais e burburinho de conversas e passos em salto alto. Por um instante, ficou decepcionada. "Na próxima vez que a Mamãe perguntar se eu quero ir ao banco com ela, vou responder que não, agora que eu já sei como é!" - Pensou Julinha.

Depois de enfrentar a enorme e entediante fila com a mãe, observou algo que a deixou bastante surpresa: A funcionária que atendeu a mãe. Como era bem vestida, bem penteada e maquiada! Que lindos brincos e anéis, e que unhas bem pintadas! Ficou encantada com a boa apresentação da moça e com o quanto ela parecia rápida e eficiente para digitar naquele teclado e atender a todos aqueles pedidos difíceis que sua mãe fez. Como ela sabe o que é um extrato? O que é um extrato? E como ela fez para sair tão rapidamente naquele pedaço de papel tudo o que a Mamãe pediu? - Julinha continuava divagando em seus pensamentos.

Terminado o atendimento, Andrea e Julinha deixaram o banco. Para Andrea, aquela ida ao banco havia sido apenas um evento rotineiro, ao qual estava bem acostumada.  Mas, para Julinha, foi uma ocasião tão significativa que ela voltaria a lembrar-se dela por toda a sua vida. Embora ainda muito pequena e não compreendendo ao certo o que havia acontecido, mesmo sem saber o que era uma decisão, Julinha tomou uma das primeiras decisões em sua vida: a de que, quando crescesse, iria trabalhar num banco e seria tão bem arrumada e eficiente quanto aquela moça que vira! Ah, e que sempre aceitaria futuros convites para acompanhar qualquer pessoa ao banco!

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Mergulhando no Riacho do Salgadinho

Houve um tempo em que bater nos filhos era o principal método de "educação" doméstica. Não comeu toda a comida do prato na hora do almoço? Lapada! Não fez a lição da Escola? Vai apanhar de cinturão e ficar ajoelhado no milho! Fez birra fora de casa? Vai levar beliscões e, chegando em casa, apanhar! Naquela época, a tolerância era zero para as crianças que ousassem fazer malcriação ou cometer qualquer erro.

Naquela mesma época, o Riacho do Salgadinho ainda era um Riacho de verdade. Quase não havia lançamento de esgoto em suas águas. Em vários trechos era possível pescar e os peixes eram preparados e saboreados sem qualquer temor. Também era possível divertir-se banhando-se em suas águas, mas isso era coisa da molecada.

Falando em molecada, Rui, então com seus dez anos de idade, mais ou menos, costumava atravessar a pé a Avenida Maceió (atual Avenida Buarque de Macedo) para voltar da escola para casa, que ficava na Praça 13 de Maio. No caminho passava pela pequena ponte sobre o Canal do Riacho do Salgadinho, nas proximidades da Igreja Nossa Senhora do Carmo.

Na época, a ponte era dividida em três partes, sendo uma para o trilho do trem e duas para os veículos e pedestres, que podiam usar uma calçada bem estreita, com menos de um metro de largura, espremida entre a pista dos veículos e o pequeno guarda-corpo, mais decorativo que seguro. O trilho do trem ficava suspenso sobre as barras metálicas e as pequenas tiras de madeira, sem o "fechamento" de concreto que havia nas áreas para veículos e pedestres da ponte. Ou seja: a ponte do trem era vazada e, claro, imprópria para a passagem de pedestres.

Mas sabemos que um molequinho não é um pedestre comum. Um moleque que se preza gosta mesmo do friozinho na barriga e está sempre à procura de novas aventuras e fortes emoções... Com três possíveis passagens, sendo uma para veículos (perigosa demais, com risco de atropelamento), uma para pedestres (fácil demais, todo mundo passava por lá, apesar da segurança não muito provável) e um vazado, para os trens... Um belo dia, nosso molequinho decidiu testar seu equilíbrio da maneira mais emocionante possível: atravessando a ponte pela passagem dos trens. Pelo menos ele decidiu fazê-lo num momento em que não seria preciso disputar o espaço com um trem de verdade...

Mas, infelizmente para o nosso protagonista, o peso do material escolar pendurado nas costas não o ajudou naquela prova de equilíbrio. Chegando no meio da ponte, desequilibrou-se, balançou-mas-não-caiu e, como o material escolar não estava bem fixo nas costas do menino, acabou soltando-se e caindo, livro por livro, caderno por caderno, no Riacho. O menino parou e, decepcionado, pensou um pouco e imaginou o tipo de punição que receberia caso chegasse em casa sem seu material da escola. Não demorou para tomar sua decisão: acompanhar o material escolar em seu mergulho naquelas águas "quase-sem-esgoto" e resgatá-lo.

Ele prontamente pulou nas águas mais ou menos limpas do Riacho do Salgadinho, recuperou seu material totalmente encharcado e seguiu para casa. Não foi recompensado como imaginou, após tanto empenho naquele resgate exaustivo: chegando em casa, foi recebido com umas boas chibatadas por estar molhado e ter estragado o material escolar.

terça-feira, 6 de outubro de 2015

O medo do elevador

João sempre detestou ter que usar elevadores. Quando podia, preferia encarar os degraus para alcançar o piso de destino, independentemente da quantidade de andares. Mas agora, não possuindo o preparo físico suficiente para suportar o peso da idade e dos problemas de saúde que o acometem, não há mais escolha para João: diariamente ele precisa usar um dos elevadores do prédio onde trabalha para chegar ao quarto andar.

Com o passar dos meses e anos, João acostumou-se com a situação de tal forma que até sozinho ele aprendeu a usar um elevador,  o que pode parecer elementar para os usuários comuns, mas não para João: usar o elevador sozinho é para ele a experiência mais temerosa possível. É o momento em que o medo surge em sua máxima intensidade. Mas ele fica ali, paralisado, aparentando naturalidade, apesar dos olhos arregalados enquanto o painel do elevador segue sua demorada contagem até o número 4.

"Se só tem tu, vai tu mesmo!" - pensa todas as vezes que entra naquele cubo gigante, frio, fechado e metálico. "Pelo menos são só 4 andares" - a viagem é curta o suficiente para manter-se sob controle, sem que as reações involuntárias provocadas pelo medo comecem a se manifestar.

Todos os elevadores daquele edifício empresarial possuem um monitor de 14 polegadas apresentando flashes com as notícias do dia e algumas propagandas, servindo como entretenimento para as pessoas enquanto seguem o trajeto vertical. Mas para João isso é irrelevante: como ele só pensa em descer o mais rápido possível, nada o distrai!

Houve um dia em que João entrou sozinho no elevador, como de costume, para iniciar o expediente. Apertou o botão do quarto andar e respirou fundo enquanto as duas folhas da porta metálica se fecharam. Não demorou para João perceber que o elevador não havia se movido. Olhou novamente para o painel e percebeu que o botão do quarto andar ainda estava apagado. "Hoje eu estou é doido!" - pensou, enquanto apertava o botão pela segunda vez, não lembrando ao certo se havia ou não apertado o botão corretamente. Dessa vez ficou atento e viu que a luz do botão foi acesa. Mas logo depois ela apagou.

Foi o suficiente para o medo assumir o controle sobre João. Já suando, apertou o botão do segundo andar para ver se funcionava e aconteceu o mesmo problema. E assim apertou desesperadamente os botões do primeiro, terceiro, quarto (mais uma vez) e todos os outros andares do prédio. Nenhum botão acendia e o elevador continuava estacionado.

O medo deu lugar ao pânico. Sentindo-se sozinho, preso naquele ambiente fechado e metálico, só havia uma coisa que poderia fazer naquela situação: gritar por socorro, o mais alto que podia, enquanto esmurrava  a porta metálica, na esperança de ser ouvido por algum transeunte no hall.

E ele foi ouvido, ou melhor, visto através da câmera de segurança do elevador. Os vigilantes prontamente verificaram que o painel do elevador não estava funcionando e tentaram se comunicar com João através do sistema de áudio e nem este funcionava. Em menos de um minuto o vigilante já estava em frente ao elevador e acionou o botão para abrir a porta e, finalmente, liberar João.

Ao sair do elevador João estava esbaforido, suando e com as mãos tremendo. Naquele dia não usou as escadas, não foi ao trabalho. Decidiu voltar para casa e lá permanecer até se recuperar do susto.

sábado, 3 de outubro de 2015

Você já pode ir...

Era uma manhã chuvosa. Enquanto percorriam a passos rápidos e em silêncio os corredores do Hospital, Dona Flávia e Francisco, seu filho, sentiam um redemoinho de emoções golpeando o estômago, ressecando a garganta e acelerando o coração. Não fossem os pés encharcados e os guarda-chuvas pingando pelos corredores, eles nem se lembrariam daquela triste chuva.

Não era horário de visitas na UTI, mesmo assim os plantonistas permitiram a entrada de Dona Flávia e seu filho, ansiosamente aguardados na ala onde se encontrava o leito de Seu Antônio. Entubado e com o corpo coberto por todos os aparatos cirúrgicos possíveis, Seu Antônio estava acordado e consciente de seu estado. Sentia-se amordaçado pelo tupo e esparadrapos em seu rosto, mas sabia que, sem eles, já não estaria mais respirando. Depois de mais de vinte dias nesse internamento, ele sabia que seria sua última vez no hospital e que não voltaria mais para casa.

Dona Flávia e Francisco não estavam apenas visitando Seu Antônio: estavam lá para a última despedida. Apesar do medo e tristeza no coração acelerado de Dona Flávia, ela olhou para os olhos de Seu Antônio e segurou a mão direita dele com leveza para não machucar ainda mais sua pele fina e fragilizada, escondida entre esparadrapos e agulhas. Ao som da chuva leve e da aparelhagem hospitalar, não contendo as lágrimas, mas segurando a emoção o quanto podia, respirou fundo e começou a falar, calma e pausadamente:

Meu amor... você já pode ir...

Você lutou com todas as suas forças contra essa doença, fizemos tudo, tudo o que podíamos, nós e os médicos...

Mas o mais importante é que você viveu uma vida digna em todos os sentidos. Você acertou muito e aprendeu o que tinha de aprender com seus erros.

Você soube ser pacífico sem deixar de lutar pelos seus valores.

Você buscou e alcançou o nível profissional e financeiro que você queria, regado a bastante suor do seu rosto e mantendo firme a sua integridade para dar à sua família uma vida confortável em todos os sentidos...

Você equilibrou sua vida profissional com a pessoal de tal forma que alcançou a excelência em todos os papéis que você viveu: profissional, pai, esposo, amigo, filho, irmão, tio, cidadão e todos os outros...

Você aprendeu a compreender as pessoas e a ter paciência com elas.

Você aproveitou muito bem a vida e tudo de belo que poderia ser apreciado.

E estar perto de você sempre foi maravilhoso para todos. Digo mais: foi uma honra!

Nós ficaremos bem.

Sim, sentiremos muitas saudades de você.

Sempre nos lembraremos de você como o homem maravilhoso que você sempre foi.

E sempre seremos gratos por tudo o que você fez por nós.

Você já pode ir, meu amor...

Nós ficaremos em paz.

Amaremos você para sempre...


Francisco permanecia do outro lado da cama, segurando a mão esquerda do pai enquanto afagava os cabelos. Enquanto chorava, ouvia a fala de sua mãe. Preferiu manter-se em silêncio. A tristeza que sentia era grande demais para pedir a palavra.

Seu Antônio fez um movimento sutil com a cabeça, em sinal afirmativo, fechou e abriu os olhos lacrimejantes e olhou para sua esposa e seu filho pela última vez. Fechou mais uma vez os olhos. E assim, sentindo o tremor e as lágrimas de sua esposa e seu filho, ciente de que cumpriu sua missão e que deixaria sua esposa e filho continuarem com as deles, ainda ao som daquela chuva fina, ele se foi. Em profunda paz.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Momentos entre Pai e Filha

O pai havia levado a filha de 10 anos para um passeio do tipo "Pai e Filha" no fim da tarde daquele domingo. Ainda no carro, haviam conversado e brincado bastante. Depois de ter encontrado onde estacionar na Orla, haviam dado continuidade às conversas e brincadeiras enquanto caminhavam lentamente pelo calçadão, terminando o passeio quando a noite já havia chegado, ao sabor de uma bela tapioca. Mais tarde, já em casa, com o horário já avançado, o pai ainda estava terminando de organizar sua bagagem para a viagem de negócios que faria naquela madrugada.

De repente, percebeu que uma das camisas que ele desejava levar para a viagem não estava passada a ferro. Não havendo uma empregada disponível para aquele serviço naquele momento, decidiu a contragosto executá-lo ele mesmo. Foi quando percebeu que sua filha havia entrado no quarto e tinha uma pergunta a fazer:

- Pai, posso dormir aqui no seu quarto com meu saco de dormir?

- Não, minha filha. - cansado e apressado para terminar de preparar a mala, já não havia espaço para bom humor ou paciência - Já é tarde, Papai tem uma viagem pra fazer. Melhor você voltar para o seu quarto.

A menina, desapontada, insistiu:

- Mas pai... eu só queria colocar meu saco de dormir aqui, ao lado da sua cama... - enquanto falava, diminuía o volume de sua voz, ficando quase muda nas últimas palavras da frase.

- Não! Eu já disse que não, não foi? - nervoso com a insistência, reagiu de maneira mais rude do que firme, elevando o volume de voz um pouco mais do que faria normalmente.

Com as sobrancelhas franzidas e expressão de profunda tristeza, a menina não conteve as lágrimas e o início do  choro. O pai prosseguiu:

- Nós fizemos um passeio hoje à tarde, não foi? E foi um ótimo passeio, ou não foi? A gente brincou, conversou, comeu tapioca, fez tudo o que tinha direito. Mas agora eu estou nervoso, sabe por quê? Por que eu estou cansado e apressado pra terminar de arrumar essa mala, mas ainda tenho que passar ferro nessa camisa. Então, minha filha, não me atrapalhe e vá já pro seu quarto dormir!

Deu as costas para a menina e apenas ouviu os passinhos corridos saindo do quarto. Voltou aos trabalhos de organização da mala e, enquanto colocava os itens de higiene na mala, refletiu por um instante e, já não tão agitado, pensou ter exagerado em sua repreensão. "Não posso deixar o dia terminar desse jeito. Vou lá no quarto dela para pedir desculpas e dar um beijo em sua testa."

Chegando ao quarto da filha, mesmo na penumbra, percebeu que a cama estava vazia. Na verdade, todo o quarto estava vazio. "Onde será que ela está?" - pensou. Procurou no banheiro, na sala e na cozinha, mas não a viu em nenhum cômodo. Enquanto se perguntava onde estava a menina, foi até a cozinha para tomar um copo d´água, quando viu a luz acesa na área de serviço e ouviu sons que apontavam que lá estava a menina.

Ao chegar na área de serviço, surpreendeu-se com a cena encontrada: a menina havia montado a tábua de passar e estava usando o ferro elétrico para passar a camisa que ele havia mostrado e queria levar para a viagem, que a menina havia levado do quarto no momento em que o pai havia virado as costas. Ainda com as bochechas brilhando com as lágrimas recentes e um tanto desajeitada pela falta de costume de usar aquele eletrodoméstico, a menina disse, já finalizando a tarefa:

- Desculpa, pai... não sei passar direito...

Então o pai a abraçou, agradeceu pela camisa passada e pediu desculpas pelo modo como havia falado com ela. Deu-lhe um beijo na testa e a levou para o quarto dela, onde ela pôde pegar o saco de dormir e levá-lo para o quarto do pai, onde dormiu tranquilamente naquela noite.

(Baseado num trecho do livro "Mais velho, do meio ou caçula", de Kevin Leman)

sábado, 26 de setembro de 2015

Na sala de aula

Todos estavam atentos à aula do Professor Prudêncio, o que não poderia ser diferente. Seu alto nível de conhecimento aliado à habilidade muito bem desenvolvida para expor e explanar os tópicos de qualquer disciplina dos cursos de Engenharia fazem dele um dos melhores professores da Universidade Federal de Santa Catarina.

Outra característica marcante do Professor Prudêncio é certamente o volume de sua voz que, de tão forte, consegue preencher cada pedacinho do espaço físico das salas de aula, inclusive as maiores. Há ainda outro fator favorável à manutenção do nível de atenção dos alunos, que é o nível de dificuldade de suas provas. Para ser aprovado, é preciso mais do que estudar e estar presente em aula: é preciso compreender todos os passos e lembrar qual a forma correta de aplicá-los mais tarde.

Naquela manhã, algo muito curioso aconteceria durante a aula de Estatística do Professor Prudêncio. Um dos alunos entrou na sala quando a aula já havia começado 30 minutos antes, mas sem dar mostras de que estava preocupado com esse fato. Sentou-se numa das cadeiras da primeira fila. O professor ministrava a aula e apenas observava. Instantes depois, aquele mesmo aluno levantou-se e colocou uma cadeira vazia em frente à que ele estava sentado. Apoiou sobre ela a sua perna direita e logo depois a esquerda. Desceu seu tronco, apoiando a área próxima aos ombros na parte mais alta do acento. O professor continuava as explanações enquanto acompanhava a movimentação do aluno. Não é preciso ter anos de experiência em sala de aula para deduzir qual era o objetivo daquele aluno. Mas o professor tinha um plano e só aguardava o momento ideal para pôr em prática.

Encontrada a posição em que se sentiu mais confortável, faltava apenas cruzar os braços, baixar a cabeça, esconder o rosto com o boné e fechar os olhos... O professor sabia que faltava muito pouco para chegar a hora de agir. Naqueles poucos minutos, muitas ideias vieram à sua mente e ele escolheu a mais interessante para aquela ocasião.

O professor calou-se por um segundo, como se estivesse fazendo uma pausa em sua explanação. Deu dois passos na direção da turma que o assistia. Olhou mais uma vez para o aluno apenas para certificar-se de que ele havia avançado um pouco além do estágio inicial do sono. Então virou-se para a turma e falou, usando o volume de voz mais baixo possível:

- Pessoal... a partir de agora vou falar um pouco mais baixo... porque não quero atrapalhar o sono do colega de vocês...

A gargalhada da turma foi instantânea. O aluno acordou atordoado e logo percebeu que era ele o motivo da gozação. Após a retomada da atenção de todos, inclusive do dorminhoco, o professor deu prosseguimento ao assunto usando seu volume de voz característico. E, dali em diante, toda a turma acompanhou a aula atentamente!

terça-feira, 22 de setembro de 2015

Beleza não põe mesa

Haviam trocado olhares nos corredores e se achado mutuamente interessantes.

"Que sorriso lindo", ela pensou. "Que corpão!", pensou ele.

Aquelas trocas de olhares ficaram cada vez mais evidentes, tanto para eles como para todos em volta. Dada a aparente timidez de ambos, as amigas dela combinaram com os amigos dele e providenciaram uma aproximação dos dois. Assim trocaram os contatos e marcaram dia, horário e local para saírem e conversarem.

E lá estavam eles. Após cumprimentarem-se com dois tradicionais beijinhos no rosto, não se contiveram e trocaram um delicioso e demorado beijo. Em seguida, de mãos dadas, começaram a caminhar e conversar. Foi aí que algo inesperado aconteceu.

Ele começou a falar para ela sobre seus hábitos e gostos. Sobre seu total descompromisso com os estudos e seu orgulho de nunca seguir os conselhos do pai. Sobre como se divertia indo a restaurantes, de onde costumava furtar os talheres como suvenir e como fazia para escondê-los muito bem de todos os funcionários e demais clientes. Contou também alguns de seus métodos favoritoss para receber o troco a mais nas compras que fazia em dinheiro. Gabou-se por sempre receber olhares e cantadas em todos os ambientes por onde passava.

Por fim, relatou que havia decidido terminar seu último relacionamento porque, embora gostasse da menina, com o tempo começou a perceber que ela não era tão bonita quanto as namoradas dos seus amigos.

- Ela não era feia, mas não era tão bonita a ponto de chamar a atenção das pessoas... Então fui desgostando dela e decidi terminar... - concluiu sua fala e passou a palavra - Já falei bastante sobre mim. Agora me fala um pouco sobre você!

Era o momento que ela aguardava. Já estava mais do que claro o significado do ditado "beleza não põe mesa". Aquele lindo sorriso simplesmente não combinava com  o comportamento do seu detentor.

Assim, na mesma hora ela criou e contou estórias totalmente fictícias sobre como sua vida era complicada, o quanto estava endividada, seus problemas de baixa auto-estima e, para finalizar, fez carinha de choro mencionando que ainda nutria sentimentos pelo seu ex-namorado. Mostrou-se a garota mais indesejável possível, a fim de desestimular qualquer pensamento dele quanto voltar a encontrá-la.

A estratégia deu certo: o desinteresse foi plantado e vingou rapidamente. Não tendo mais sobre o que  conversarem, foram embora daquele encontro rapidamente. Desde então, eles deixaram de trocar olhares para trocar apenas cumprimentos educados. E os números de contato um do outro, resultado da investigação de amigos e amigas, foram deletados dos dois celulares.

sábado, 19 de setembro de 2015

Todos a bordo do Avião-Foguete!

- "Senhores passageiros, sejam bem vindos ao nosso vôo!" - dizia o Piloto, usando o alto-falante invisível do Avião-Foguete, e continuava: "Nessa viagem, iremos sobrevoar a nossa estratosfera e, em seguida, partiremos para a lua. Depois chegaremos perto do sol e então retornaremos para o planeta Terra."

Para os olhos comuns, éramos apenas algumas crianças sentadas numa escada estreita, com menos de 10 degraus, que dava acesso a um patamar e se bifurcava em dois pequenos lances superiores de escada, na direção de dois apartamentos no primeiro andar do Edifício Porto Calvo. Mas, para os primos participantes, era mais uma incrível aventura a bordo do avião-foguete.

César era o piloto, como de costume. Ele permitia a entrada dos passageiros – eu, Lalá, Léo, Paulinho, Andréa e Alane, Mônica e Patrícia (quando estavam em Maceió) e até Celinha, Dudu e Maninho participavam da brincadeira – para o interior da aeronave e pedia para que sentassem e afivelassem os cintos. Cada degrau era um acento para os passageiros e o primeiro degrau, ou melhor, a cabine do piloto ficava de frente para o portão de ferro, onde uma abertura dava aos passageiros a visão do exterior da aeronave.

Estando todos prontos, o Comandante César iniciava a viagem e descrevia todos os trechos que estávamos sobrevoando. E, quando necessário, avisava sobre áreas de turbulências, quando então passava as instruções de segurança cabíveis.

- "Senhores passageiros, aqui quem fala é o Comandante. Como estamos nos aproximando do sol, por favor, vistam seus casacos de gelo". - Como éramos passageiros obedientes, fazíamos os gestos e vestíamos os casacos de gelo imaginários.

Ao final da viagem, ele avisava que o avião-foguete iria aterrissar e pedia para afivelarmos os cintos novamente. Depois de estacionado no pátio, o comandante agradecia a escolha da empresa e liberava o desembarque.

Daí saíamos da escadaria e íamos contar para nossos pais e também para Vó Tita, Vô Carminho e Tia Marly sobre a nossa mais recente viagem a bordo do avião-foguete. Claro, depois de outras muitas brincadeiras!

O Avião-Foguete foi palco de muitas lembranças da nossa infância. Dizem os Psicólogos que todos nós, mesmo adultos, continuamos a ser as crianças que costumávamos ser. Não foi à toa que César se formou em Ciências Aeronáuticas e eu continuo apreciando muito minha vida como passageira frequente de aeronaves!

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

A carona literária

Alice sabia que aquela consulta médica não duraria mais do que 10 minutos, mesmo tendo sido marcada com um mês de antecedência. Mesmo tendo que aguardar por mais de uma hora na sala de espera. Ainda assim, Alice entusiasmou-se quando agendou e compareceu à Clínica Médica no dia marcado. O motivo de seu entusiasmo era o livro recém-comprado que estava devorando, então aqueles minutos ou horas de espera seriam muito bem aproveitados.

Após os procedimentos junto à recepção, Alice sentou-se numa das cadeiras disponíveis, tirou seu livro da bolsa e foi direto à página cuja leitura havia sido interrompida na noite anterior por um pedido de socorro de sua filha, que havia visto algum "bicho" no seu quartinho e, por isso, não conseguia dormir. Depois de vasculhar todo o quarto da menina sem sucesso, o único argumento que a convenceu a dormir foi o de que "a mamãe vai ficar aqui com você e não vai deixar esse bicho te pegar". E assim, 30 minutos depois, quando a menina finalmente dormiu, já estava na hora da mãe dormir também. Assim o livro só foi reaberto no dia seguinte, na sala de espera.

Enquanto tirava o livro da bolsa, Alice olhou por um instante as opções de leitura disponíveis no local. Revistas de fofocas, novelas e famosos estavam espalhadas pela mesinha central da sala de espera. Claro que nenhuma daquelas opções seria mais interessante do que a continuação da leitura do livro naquele dia.

E então Alice começou a dar continuidade à sua leitura. Após alguns minutos e algumas páginas, notou que um rapaz havia sentado na cadeira ao seu lado. Nada demais até então, já que era uma das poucas cadeiras vazias na sala. Mas, pouco depois, sua visão periférica não deixou de captar algo curioso que estava acontecendo: o rapaz parecia estar acompanhando a leitura de seu livro.

Ainda que fosse um desconhecido e o mesmo não tivesse pedido um favor, ou "com licença" para juntar-se à leitura, Alice carrega em seu coração uma grande generosidade e empatia. Imaginou como ela mesma se sentiria caso não estivesse com seu livro atual e tivesse que recorrer às revistas disponíveis e, eventualmente, encontrasse uma possibilidade de carona literária. Concluiu que talvez fizesse o mesmo - talvez mais discretamente ou, dependendo da situação, com coragem suficiente para pedir licença para acompanhar a leitura. O fato é que permitiu, de bom grado, que o leitor desconhecido continuasse acompanhando os trabalhos, sem dar mostras de que havia percebido a pequena "intromissão".

Foi quando chegou ao fim da página. "Será que ele já leu tudo? Se eu virar a página, será que ele vai acompanhar o texto?" - na dúvida, aguardou mais alguns segundos antes de passar para a página seguinte. E assim continuou nesse ritmo, contando alguns segundos antes de virar a página, para garantir que sua "dupla" não ficaria defasada.

Os minutos foram passando junto com as páginas e a leitura "em dupla" continuava, até que Alice ouviu seu nome sendo chamado na recepção. Estava na hora de ser atendida. Antes de levantar-se, porém, virou-se para o rapaz e, delicadamente, desculpou-se e explicou que teria que levar o livro junto. Mostrou a capa, com o título e o autor e recomendou ao rapaz que o comprasse para continuar a leitura. O rapaz não conseguiu esconder o envergonhamento, mas agradeceu bastante e disse que providenciaria a compra daquele livro, pois estava gostando muito da leitura e havia ficado curioso para ler o início da história. E pediu desculpas pela intromissão. Alice apenas sorriu e seguiu para a consulta.

Após o término da consulta, passando pela sala de espera a caminho da saída, observou que o rapaz já não estava mais. Seguiu tranquila para sua casa, satisfeita por ter feito sua boa ação do dia.

domingo, 13 de setembro de 2015

Ei, cadê meu pote?

Sílvia e Roberto estavam namorando havia dois meses. Dona Lourdes estava começando a acostumar-se com a presença daquele rapaz em sua casa nos finais de semana. Ele dava mostras de ser um bom rapaz e o relacionamento, apesar do início recente, prosseguia com tranquilidade. Sérgio, irmão de Sílvia, tinha um ótimo entrosamento com Roberto.

Chegou um fim de semana em que Dona Lourdes e Sílvia, bastante habilidosas na arte de preparar quitutes, encheram a mesa da sala com docinhos e salgadinhos variados, além do bolo, para comemorar com os parentes e amigos mais próximos o aniversário de Sérgio. Brigadeiros, beijinhos de coco, surpresas de uva, trufas e docinhos finos competiam contra coxinhas, pãezinhos de queijo, pastéis de forno, canudinhos e bolinhos de bacalhau pela ocupação do espaço da mesa da sala onde o bolo, centralizado, moderava e delimitava o território dos doces, de um lado, e salgados, do outro. Isso sem contar com refrigerantes, cerveja e água de coco servidos aos presentes.

Fim de festa, os participantes haviam desejado felicitações ao aniversariante, agradecido e se despedido, restando na casa apenas os moradores e o "agregado", que havia oferecido ajuda com os trabalhos de reorganização da casa para depois partir para a sua residência. Como retribuição à gentileza de Roberto, Dona Lourdes pegou um dos potes de seu armário e preencheu com amostras generosas de todos os doces e salgados que haviam sobrado. Mas fez isso com um certo aperto no coração, pois o ciúme que ela sentia de seus objetos só não era maior do que o que sentia pelos filhos.
Assim, Roberto deixou a casa de Sílvia carregando um pote bem servido de quitutes, que foram muito bem apreciados em seus lanches e sobremesas durante a semana que se passou. E, chegado o novo fim de semana, era hora de reencontrar Sílvia e sua família.

Dona Lourdes havia contabilizado o débito do pote emprestado e aguardava ansiosamente o fim de semana para resgatá-lo e fechar seu balancete dos utensílios da cozinha. Assim que ouviu a voz de Roberto na sala de casa, dirigiu-se rapidamente para lá em busca de seu amado pote. Ao notar as mãos vazias de Roberto, foi logo perguntando: "Ei, cadê o meu pote?"

Enquanto Roberto se desculpava por ter esquecido e prometia que no dia seguinte levaria o pote de Dona Lourdes, Sérgio, que percebeu o nítido constrangimento de Roberto frente à cobrança, repreendeu sua mãe dizendo: "Mas mãe, é só um pote daqueles de sorvete!" - chamando a atenção para o fato de ser um objeto de pouco valor financeiro, além de haver uma pilha de potes como esse no armário da cozinha.

E Dona Lourdes respondeu: "Mas é bom pra guardar feijão na geladeira!".

No dia seguinte, Roberto entregou logo o precioso pote de sorvete para Sílvia, que repassou imediatamente para Dona Lourdes, que agradeceu e o recolocou no seu armário. Seu balancete agora estava fechado.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

A dor da mutilação

Abriu a gaveta da cozinha e rapidamente encontrou a faca mais amolada. Sabia que a tarefa de cortar a charque em pequenas tiras exigia aquela faca de cabo branco, usada apenas nesse tipo de ocasião especial. Enquanto preparava-se para iniciar a tarefa, Caio e Júlia, seus sobrinhos de 10 e 17 anos, respectivamente, a acompanhavam na cozinha enquanto os três conversavam, brincavam e sorriam, como de costume. Dona Célia, sua mãe, permanecia na sala assistindo ao Jornal na TV.

Segurou aquele pequeno paralelepípedo de charque com a mão esquerda e, com firmeza, iniciou os movimentos de vai e vem com a faca do cabo branco na mão direita. Morando sozinha, havia habituado-se com o sentimento de precaução constante. Não havendo ninguém para socorrê-la imediatamente numa eventual necessidade, passou a levar mais do que a sério os ditados "prevenir é o melhor remédio" e "a prevenção morreu de velha". Mas, naquele momento, o sentimento de medo que leva à precaução constante deu lugar à tranquilidade. Já que estava na casa de sua mãe e na companhia de seus familiares, o que poderia acontecer de errado?

Estava apenas iniciando o corte das tiras de charque. Aquele paralelepípedo agora estava num formato bem mais irregular e necessitava ainda mais firmeza para que os cortes saíssem como o desejado. E, de repente, a tarefa teve que ser interrompida.

Não foi apenas uma fisgada. A dor física foi instantânea, paralisante e extremamente intensa. "Não foi um mero cortesinho. Foi grave." - se pudesse congelar aquele instante e racionalizar o que havia acabado de acontecer, seriam suas palavras.

Um grito, olhos cerrados e lacrimejando, o corpo curvando e dor intensa foram as sensações imediatas. Não podia acreditar no que havia acabado de acontecer. Aproximou a mão direita do peito, que segurava seu dedo indicador e comprimia os outros dedos da mão esquerda junto ao corpo. Seu coração batia acelerado. Os olhos permaneciam fechados e lacrimejando. Sabia que se lembraria daquele dia para o resto de sua vida. O dia em que havia se mutilado acidentalmente.

Dona Célia já estava na cozinha no mesmo segundo em que escutou o grito da filha. Caio e Júlia tentavam falar e olhavam assombrados para a Tia, encurvada, já ajoelhando-se no chão, segurando o dedo esquerdo com a mão direita, tentando desesperadamente manter sua mão inteira por alguns últimos segundos. Era chegada a hora de abrir os olhos e encarar o ocorrido.

Então levantou as pálpebras vagarosamente. O queixo e as mãos tremiam enquanto a visão ainda turva devido às lágrimas se restabelecia. Finalmente veio a nitidez e a realidade.

Havia sido apenas um pequeno corte. Fundo, mas pequeno. A dor que sentiu foi tão forte, tão intensa, que havia acreditado, por um instante, que a faca do cabo branco havia decepado seu dedo. Mas menos de um centímetro do dedo indicador havia sido atingido por um corte não fundo o suficiente para buscar-se primeiros socorros especializados.

O medo havia tornado o ferimento mais brutal do que realmente havia sido. Mas apenas em um ponto suas ideias estavam corretas: ela se lembraria daquele dia por toda a vida, menos pelo corte e pela sensação que a dor e o medo provocaram, mas muito pela visão que teve, logo em seguida, dos rostinhos assustados de seus sobrinhos com toda a dramatização da situação.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Em busca de respostas e perguntas

Peguei a tampa do frasco, coloquei sobre a abertura do mesmo, comecei a rosquear e parei no início, deixando a tampa posicionada sobre o frasco.

- Não, minha filha! Não pode deixar a tampa assim! Tem que tampar "bem tampado" - disse a minha mãe enquanto completava o rosqueamento que eu havia apenas iniciado - senão ele "vai embora"!

Fiquei intrigada com a afirmação de que o líquido iria "embora". Eu devia ter uns sete ou oito anos de idade, mais ou menos, e estava no meio da atividade de manicure.

- Como assim ele "vai embora"? Ele tem pernas? - fiz essa pergunta porque sempre a ouvi quando eu procurava por alguma coisa - normalmente algum brinquedo - e, como não encontrava, perguntava à minha mãe se ela o havia visto. Ela costumava responder que "ele está onde você colocou! Por acaso ele tem pernas?"

Quando criança, eu costumava fazer muitas perguntas por um motivo: eu queria entender o porquê das coisas. Eu queria entender aquela história segundo a qual um líquido "iria embora" se a garrafinha não ficasse bem tampada. Eu queria saber qual era a finalidade de se pintar com tinta branca as bases de árvores e de coqueiros que eu via espalhados pela cidade. Eu via o mapa rodoviário do Brasil emoldurado na parede do gabinete de casa e queria entender por que as estradas tinham aquele traçado tão irregular, se bastaria usar uma linha reta para ligar uma cidade a outra.

Bom, eu fazia muitas perguntas e é claro que meus pais não tinham as respostas para todas. E quanto mais o tempo passava, mais e mais perguntas eu me fazia e fazia para eles. "Você vai entender isso quando estiver na sexta série do Colégio", disse-me a minha mãe em algumas ocasiões, variando a série ou o nível de escolaridade. Isso me deixava ansiosa à espera das respostas, mas não angustiada, pois ao mesmo tempo eu sabia que as respostas viriam ao seu tempo. Então aprendi a esperar.

Com o passar das séries do Colégio, novas perguntas foram formuladas através de pequenos experimentos científicos: observei que um pouco de água num recipiente deixado ao ar livre evaporava. Observei que um pedaço de esponja de aço enferrujava se fosse guardado molhado. Meu pai explicou que um copo com água gelada ficava com a superfície úmida por causa das partículas de água que estavam "flutuando" na atmosfera. Assim pude fazer vários pequenos experimentos e eu amava fazê-los.

Somente anos depois eu vim entender que o líquido que "iria embora" do frasco era a acetona que estávamos usando para fazer os acabamentos na pintura com esmalte para unhas. Sendo um material de alta volatilidade, o frasco que continha a acetona deveria ser mantido muito bem fechado, para que o líquido não "escapasse" pelas brechas do rosqueamento por efeito da evaporação.

Com o passar do tempo, novas perguntas foram formuladas e eu passei a buscar as respostas nos livros, na internet ou mesmo perguntando às pessoas. E, quanto mais respostas eu encontro, mais perguntas surgem. Para muitas perguntas eu não encontrei respostas e sei que ainda há muitas perguntas a serem formuladas no futuro. Como dizia uma propaganda antiga da TV Futura: "Não são as respostas que movem o mundo. São as perguntas". Que venham mais perguntas!